A escola primária

Há certas coisas que nunca se esquecem, e na minha memória guardo imagens intactas dos tempos passados na escola primária. Lembro-me da cara da minha professora que me acompanhou os quatro anos. Lembro-me da sala de aula, que foi sempre a mesma. Lembro-me de alguns colegas na perfeição, dos mapas de Portugal e dos trabalhos feitos ao longo do ano expostos nas paredes.

A escola era nas traseiras da minha casa, não tinha de atravessar uma única estrada para lá chegar, por isso, desde cedo, passei a ir sozinha. Ainda hoje, sempre que a vejo, surgem estas memórias em estilo fast forward que me fazem viajar no tempo e sentir menina novamente.

Tenho a sensação que o Outono e o Inverno eram mais rigorosos nessa altura. Recordo-me da minha mãe vestir-me dois pares de collants, da chuva constante e das minha galochas de borracha. Recordo-me de existir na sala de aulas um aquecedor eléctrico virado para nós, e outro mais pequeno virado para os pés da professora. Recordo-me dos dias sem recreio por causa da chuva intensa. Recordo-me do leite com chocolate morno, que era distribuído pelos alunos num jarro de plástico enorme, daqueles que se usava para ir buscar água nas aldeias. Recordo-me da fila indiana para tomar o comprimido de fluór, e não posso deixar de recordar, por motivos bem menos agradáveis, a régua de madeira.

Mas os primeiros dias de escola não foram fáceis. Desde os três anos que andava num infantário, o Patinho Feio. Nessa altura e fora do que era habitual para a época, eles faziam a preparação para a primária de acordo com os resultados de testes psicotécnicos de cada criança. Quando entrei para a primária, já sabia escrever algumas palavras fazer algumas somas, e outras coisinhas de certo que simples. O primeiro dia de aulas ia feliz e aguardava-o com muita espectativa, mas após uma semana, em que ouvia e fazia apenas o que já sabia, começou o drama para a minha mãe.

Eu recusava-me a ir, dizia que não queria lá estar porque já sabia tudo. Não queria e eram fitas e choros porque queria fazer mais coisas. O problema lá se resolveu, com a professora a estabelecer para mim e outro colega na mesma situação, um plano de estudo um pouco mais avançado. Motivada novamente, a ida para a escola passou a ser ansiada diariamente.

Houve no entanto, dois episódios dos quais nunca me irei esquecer e que se destacam nas minhas memórias. O primeiro que não abona nada a meu favor, mas que agora me faz rir a bom rir, ao imaginar a cara da minha mãe. Ambos aconteceram nas primeiras semanas de aulas da primeira classe.

A professora tinha por hábito dialogar com os pais, e chamava-os à escola sempre que havia algo que o justificasse. Um dia, no meu caderno, ia o recado da professora a pedir que a minha mãe fosse ter com ela. Quando lá chegou, estava a professora a falar com uma mãe exaltada. Queixava-se, a alto e bom som, que a filha aparecia mordida e beliscada, que não podia ser, que a miúda que lhe fazia isso tinha de ser castigada e por aí fora. A professora desculpava-se, que era difícil vigiar todos os meninos durante o tempo todo, mas que iria tentar mudar a situação. A senhora bradava insultos, e a minha mãe começava a pensar se também eu sofreria dos mesmo ataques.

Sai a senhora ainda a protestar, e a minha mãe aproxima-se.

A outra menina deve ser terrível! - diz ela referindo-se à menina que dava as dentadas e beliscaduras. Ela faz isso com todos?

Não, é apenas com esta criança que é a colega de secretária, responde a professora. Mas sabe, essa menina é a sua!

E a minha mãe ia tenho um ataque! Ficou vermelha de vergonha e a pedir um buraco para se enfiar! A minha?! A Sandra?! Não pode! - dizia ela.

Sim, a sua. Mas ela tem um motivo. É que esta menina não tem hábitos de higiene, e a sua diz que ela cheira mal e que não a quer ao pé dela. Então pica-a com o lápis, belisca-a e morde! Mas depois de as ter separado, a sua filha parou. Tentei chamar a atenção da mãe para a falta de higiene, mas como viu, vai ser muito difícil dialogar com ela. Chamei-a a si para a pôr a par da situação.

A minha mãe sentia-se cada vez mais envergonhada e pedia desculpa a torto e a direito, que ia falar comigo e que a professora me chamasse à atenção sempre que fosse necessário. Não quero imaginar-me na pele da minha mãe, mas confesso, que agora à distância de tantos anos, não posso deixar de rir. Mas há uma coisa que me intriga, se a menina realmente cheirava mal, como é que eu era capaz de a morder?!

Num dia de chuva intensa, em que supostamente não havia intervalo para o recreio, eis que a chuva pára milagrosamente e temos direito a vir soltar a energia acumulada, em belas corridas e saltos em comprimento sobre poças de água. De repente, surge um cãozito no recreio. Todos andam atrás do cão e o cão, todo contente, não pára de correr de um lado para o outro. Às tantas, o cão volta a sair do recreio por onde entrou, por um buraco na rede, mesmo a um canto. Eu ponho-me de cócoras sobre o muro baixo do lado do recreio com a cabeça e ombros do lado de fora a dizer adeus ao cão. Uma fila de colegas a brincar às corridas, passa por trás de mim e há um que me dá um encontrão.

Toca a campainha para todos regressarem à sala. Todos regressam menos eu. Eu fiquei estendida no chão do lado de fora da escola, com um rio de sangue a sair debaixo de mim. Do lado de fora, o muro era mais alto, e com a queda devo ter desmaiado. Ninguém deu por nada pois, supostamente não havia recreio, e não havia mães ou avós por perto como habitualmente. Naquela parte recreio também não havia nenhum adulto e por isso, só passado algum tempo, quando passaram duas senhoras junto à escola é que me encontraram. Pegaram em mim e levaram-me à escola.

As continas, nome usado na altura para as auxiliares de acção educativa, pegam em mim, e põe-me literalmente de pé com a cabeça inclinada sobre o lavatório da directora a escorrer o sangue que continuava a sair da minha cara, enquanto decidiam o que iriam fazer. Resolveram levar-me aos bombeiros e lá foi uma delas comigo. Eu que era uma miúda de seis anos, pequena e magricela, devia pesar toneladas sem parecer porque levaram-me pelo meu pé por mais de um quilómetro, com uma toalha turca ensopada em sangue colada à cara.

Quando chego aos bombeiros, lembro-me de ser arrancada da contina, e do bombeiro gritar com ela sobre a forma que eu tinha chegado ali. Já tinha perdido muito sangue e fui levada de emergência para o hospital. Lembro-me dos safanões que senti na ambulância e de, chegados ao hospital, voarem comigo em cima da maca, por entre portas e mais portas até entrar numa sala de cirurgia. A pressa era tanta que me levaram para uma sala onde estavam a preparar um homem para uma cirurgia à cabeça!

O que aconteceu, foi que caí em cima de uma garrafa de Sumol partida. Fiz um enorme golpe, do lábio inferior ao queixo, que por pouco me cortou os músculos que existem nessa zona. Usava óculos e no impacto, as lentes estalaram e com a pressão exercida fiquei com dois belos olhos à belenenses. Desde aí, tenho uma bela cicatriz que sobrevive mesmo depois de três operações plásticas feitas enquanto era criança e que ainda suscita muita curiosidade de quem me conhece pela primeira vez.

A escola primária deixa-nos marcas para sempre, mas digamos que as minhas foram um pouco longe demais.