<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-13287483</id><updated>2012-01-27T01:05:49.381Z</updated><title type='text'>A minha vida dava um blog...</title><subtitle type='html'>Relatos de peripécias mais ou menos divertidas, ocorridas em tempos mais ou menos distantes, isentas de imparcialidade e com o rigor das minhas memórias. Um blog para ler, rir e chorar... por mais... assim o espero!</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://costinhaslife.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://costinhaslife.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Costinhas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10671459330600777307</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-JHQT9Pp1A9A/TW43vcWSSJI/AAAAAAAAGxw/45RdEVJAqaE/s220/IMG_4379%2B%25282%2529.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>14</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13287483.post-114025611930221863</id><published>2006-02-18T09:10:00.000Z</published><updated>2006-03-25T14:23:27.693Z</updated><title type='text'>Sonhos</title><content type='html'>Estou sozinha em casa e ainda de pijama. Tenho uns vinte e poucos anos, e a casa onde estou é a única onde vivi até essa idade. Estou grávida de fim de tempo. Vou à casa-de-banho e quando estou sentada na sanita, uma vontade imensa de puxar toma conta de mim. Percebi que estava na hora. Penso que tenho de chamar alguém mas a vontade crescente em fazer força e as dores não me deixam mexer. Vou ter de ter a criança sozinha, penso novamente. Apoio-me na pedra do móvel do lavatório, ponho-me na posição que me é mais confortável e puxo, respiro e semicerro os dentes como a intuição me dita. Tiro umas toalhas do móvel e ponho-as no chão. Passado pouco tempo, tenho um bebé, sujo e muito chorão do lado de fora. Embrulho-o e seguro-o colado a mim. A minha preocupação vira-se para o cordão umbilical. Como fazer?! Vou à cozinha buscar molas da roupa, e aperto-o o melhor que consigo, cortando-o de seguida. Pego no telefone e chamo o 112 para nos virem buscar.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Fico ali enamorada do meu bebé, e decido-lho o nome. Aquela cara tão perfeitinha e o cabelito todo colado, a boquinha que abre e fecha num bocejo lento. Uma tranquilidade, uma felicidade como não existe outra. De seguida, aquela vontade volta. Apetece-me puxar e muito. Na barriga sinto como que outro bebé. Não é possível, penso eu. O médico não se pode ter enganado e serem gémeos!? Depois lembrei-me de ter ouvido falar em alguém que teve gémeos e que um nunca se deixou ver por estar sempre atrás do outro. Pode ter acontecido o mesmo. Vou ter outro bebé! E volto a preparar-me, pousando o bebé que tinha nos meus braços na banheira, embrulhado na toalha e numa manta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Repete-se tudo. Muito esforço, muita dor, e um bebé volta a sair de dentro de mim. Tão diferente do primeiro, de outro sexo até. Muito chorão, muito sujo, muito mas muito lindo aos meus olhos. Desta vez, as molas da roupa já estavam à mão, e tudo foi feito com maior destreza. Dois bebés. Lindos, e que me pareciam bem de saúde. Eu, cansada, transpirada, dorida mas muito feliz. O que vale é que a ambulância já deve vir a caminho. Não saio daquela casa-de-banho. Mantenho-me ali com os meus dois bebés, e seguro-os junto de mim. Bem coladinhos a mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis senão quando, aquela dor regressa. Ai não pode ser, digo eu. E a ambulância que não há meio de chegar. A dor aperta a vontade de puxar também. Não podem ser três, penso eu, num desespero crescente. Em tantas ecografias, como é que não viram isso? A dor cresce mas o meu cansaço é demasiado. Ponho os dois bebés na banheira. Tiro as últimas toalhas do armário. Estou cansada, eu não consigo, é o único pensamento que me assola. E a ambulância que não chega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dor e a necessidade de tirar aquele bebé de dentro de mim é maior que o meu cansaço. Puxo, respiro e sigo sem pensar o que o meu corpo me dita. Novamente um bebé chorão, sujo e lindo, e tão diferente dos outros dois me enche os olhos de lágrimas. Nesse momento entram finalmente os médicos do INEM que tomam conta da situação. Suspiro de alívio e perco as forças que pareciam restar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fecho os olhos, e quando os abro já não estou na casa-de-banho. Estou na minha cama. Na casa onde vim morar depois de casada, com o meu marido ao lado a dormir um sono profundo. Olho para a barriga, e vejo o meu ventre liso. Foi um sonho. Um sonho tão intenso, que me deixou transpirada, ofegante e com todos os meus ossinhos doridos. Levanto-me, mas as pernas falham-me, dói-me a andar e o cansaço é brutal. Foi só um sonho. Não estou grávida nem planeio a vir a estar tão depressa. Já não me consigo lembrar do sexo dos bebés, mas tenho a sensação que o primeiro e o último tinham sido meninas, e o segundo um rapaz. Já não me consigo lembrar dos nomes que escolhi. Mesmo as caras de cada um estão envoltas numa névoa que não me deixa reconhecer os seus contornos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante todo o dia, me doeu o corpo e o cansaço não me largou. Mas ao mesmo tempo, um sorriso idiota teimava em fixar-se na minha cara. A lembrança deste sonho não vai desaparecer nunca. E quem sabe, se um dia, estes três bebés não vão fazer mesmo parte da minha vida.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13287483-114025611930221863?l=costinhaslife.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://costinhaslife.blogspot.com/feeds/114025611930221863/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13287483&amp;postID=114025611930221863' title='55 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/114025611930221863'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/114025611930221863'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://costinhaslife.blogspot.com/2006/02/sonhos.html' title='Sonhos'/><author><name>Costinhas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10671459330600777307</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-JHQT9Pp1A9A/TW43vcWSSJI/AAAAAAAAGxw/45RdEVJAqaE/s220/IMG_4379%2B%25282%2529.jpg'/></author><thr:total>55</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13287483.post-113734661717563421</id><published>2006-01-15T17:36:00.000Z</published><updated>2006-03-25T14:24:32.596Z</updated><title type='text'>Sorte ou Azar</title><content type='html'>Às vezes penso que tenho muita sorte por ainda pisar esta terra. Se existe destino eu não sei. Se a nossa hora está marcada e à espera de ser alcançada, também não sei se acredite. A verdade é que já por três vezes, eu podia ter partido para outro lado, que se espera melhor, e fiquei cá. Como à terceira não foi de vez, resta-me aproveitar bem todos os momentos que me restam.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Das idades já não me lembro bem. Foram de certo entre os meus onze e os quinze anos. Mas as histórias, essas hão-de ficar guardadas na memória, para um dia, quem sabe, contar aos netos, enrolados numa manta à lareira nos dias chuvosos de Janeiro.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A praia da Zambujeira do Mar serve de cenário à primeira das três. Uma manhã de primavera que não convida os turistas a acotovelarem-se no pequeno areal. A praia toda estava por minha conta e da minha madrinha. Deitada na toalha, de &lt;em&gt;headphones &lt;/em&gt;nos ouvidos e virada de costas para o mar, a minha madrinha devorava um livro. Eu andava por ali. Já era grandinha e sabia o que fazia. Sabia nadar e tinha muito respeito ao mar onde chapinhava os pés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brincava ali pela beirinha com a espuma que se formava. Fazia castelos na areia molhada, que só o eram para quem fosse muito imaginativo. Jogava à apanhada com as ondas daquele mar que se mostrava calmo. Até que sem saber como, dou por mim enrolada numa dessas ondas. Venho ao de cima e vejo a praia, que antes estava ali, mesmo debaixo dos meus pés, mas que agora estava lá longe. Tento chamar pela minha madrinha, mas ou era a voz que não saía, ou era ela que não me ouvia. Tentava esbracejar mas a corrente começava a empurrar-me contra as rochas e precisava dos braços para afastar-me das arestas afiadas pela força das marés. Tentava nadar de volta à costa mas parecia não sair do mesmo sítio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma onda que me afunda e quando volto à superfície, vejo alguém a correr na minha direcção. Correu, nadou, agarrou-me e tirou-me daquele mar que ocultava na sua calma a força que realmente tinha. Estava a correr à beira-mar e reparou em mim. Tive sorte, porque a minha madrinha só se apercebeu que alguma coisa se tinha passado quando apareci ao pé dela ofegante. Contada a história, a única pessoa que precisava de assistência médica era ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se desafiei a morte desta vez, consegui pregar-lhe uma rasteira ainda maior da segunda. Pensem em férias de verão. Das que duravam três meses. Eu e os meus irmãos, rumávamos sempre até terras transmontanas para brincar e pular livres como os pássaros. A casa servia apenas para comer e dormir, e alguns afazeres dos quais não nos conseguíamos livrar, que a minha mãe não brincava em serviço. Em frente à casa da minha avó, o Largo do Cimo d'Aldeia convidava a todo o tipo de brincadeiras. Do outro lado, a casa que deu nome ao largo, centenária a brasonada, tinha uma das paredes com uma barriga que já impunha respeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os anos, se falava que podia ruir. Todos os anos, as crianças da aldeia se juntavam para brincar junto a essas paredes que proporcionavam a sombra fresca nas tardes quentes de Agosto e que abrigavam os morcegos que saíam apenas ao início da noite. Todos os anos os pais diziam que não nos queriam ali, e todos os anos a gente por lá continuava. Uma manhã, um pouco antes da hora de almoço, éramos quatro crianças a brincar. Eu, os meus irmãos, e a minha grande amiga das férias de Verão, que morava na dita casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe dela chamou da janela a pedir lenha para acabar de preparar o caldo, que nestas casas antigas o fogão ainda era desnecessário. Contrariados, afastamo-nos uns cinco metros da brincadeira, para ir buscar a lenha. Um pouco mais à frente a minha mãe lavava nos tanques, e assim que nos vê, chama-nos e corremos em sua direcção. Quando a alcançamos, ouve-se um estrondo imenso e uma nuvem de pó, ergue-se donde ainda há menos de dois minutos estávamos a brincar. Aquelas pedras centenárias não se aguentaram mais e ruíram de uma só vez, preenchendo todo o largo, e esmagando os brinquedos que lá nos esperavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer os quartos do primeiro andar, quer as cortes do rés-do-chão, ficaram à vista de todos, despidos das paredes que os resguardavam. Um camião estacionado à frente da nossa casa, foi empurrado contra a mesma, pela força daquelas pedras enormes. Um cenário impressionante, que poderia ter sido uma verdadeira catástrofe, não fosse ainda se usar lenha para fazer o caldo, e o fogo estar fraco para o acabar. Mesmo assim, não foi a partir daí que comecei a gostar de sopa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como reza o ditado, &lt;em&gt;três é a conta que Deus fez&lt;/em&gt;, como tal, até parecia mal que não acontecesse outra história para atingir esse número. Como prenda de termos passado de ano, os meus pais compraram a mim e ao meu irmão, duas &lt;em&gt;biclas &lt;/em&gt;novas. A minha, rosa choque, mesmo ao estilo de uma &lt;em&gt;teenager&lt;/em&gt;, e a do meu irmão azul e branca, bem à rapaz. A condição imposta pelos meus pais, para que andássemos com as bicicletas na rua, foi a de que tratássemos sozinhos dos documentos para o poder fazer, respeitando as leis municipais. Uma forma de nos responsabilizar e mostrar que, para andar na estrada, não era preciso apenas descer os três lances de escada com a &lt;em&gt;bicla &lt;/em&gt;às costas. Por isso, lá tratámos de comprar os reflectores obrigatórios, e preencher a papelada na câmara municipal, com os pedidos de matrículas para as bicicletas e das licenças de condução de velocípedes sem motor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tínhamos de ir prestar provas antes de nos ser atribuída a licença. No dia combinado, lá fomos nós responder com mestria às perguntas sobre sinais de trânsito e fazer um oito sob o olhar atento do funcionário da câmara. Passados no exame, restava esperar que nos entregassem as ditas licenças. Ora, toda a gente sabe que não há nada melhor que uma corrida de bicicletas, e para comemorarmos o feito, foi o que decidimos fazer na viagem de regresso a casa. Tínhamos de descer uma rua com alguns cruzamentos, sendo o último o que tinha mais movimento. As bicicletas foram ganhando velocidade por ali abaixo, e eu liderava triunfantemente a disputa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O único problema, foi que o último cruzamento, aquele onde íamos ter de parar, estava cada vez mais próximo e a estrada cheia de cascalho solto. Daquele excelente para se derrapar em grande estilo, mas péssimo para se travar sem se acabar com os joelhos no chão. Eu apertava o travão de trás de mansinho e a bicicleta tentava fugir-me, apertava um pouco mais o travão e olhava para o tractor das obras que se aproximava pela esquerda. Se apertasse com mais força e a bicicleta simplesmente ia a deslizar até ao cruzamento, se não travasse acabaria debaixo do tractor. Eu travava, e o tractor continuava, eu travava e o tractor repara nos dois putos destravados em cima das bicicletas. Eu continuo a travar e o tractor está mesmo ali. Eu consigo parar e a minha roda da frente está encostada à roda do tractor, que entretanto, travou a fundo mas conseguiu parar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De olhar fixo no motorista, com o coração aos pulos e com a respiração suspensa durante tempo incerto, volto a montar a bicicleta, contorno o camião e lá vou eu, em frente, como se nada tivesse passado, mas sem conseguir olhar para trás uma única vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Posso dizer que o azar já me apareceu do mar, da terra e do ar, mas que felizmente a sorte esteve comigo de todas as vezes. Posso não ter sorte ao jogo, mas haverá melhor &lt;em&gt;jackpot&lt;/em&gt; que estes?!&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13287483-113734661717563421?l=costinhaslife.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://costinhaslife.blogspot.com/feeds/113734661717563421/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13287483&amp;postID=113734661717563421' title='19 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/113734661717563421'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/113734661717563421'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://costinhaslife.blogspot.com/2006/01/sorte-ou-azar.html' title='Sorte ou Azar'/><author><name>Costinhas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10671459330600777307</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-JHQT9Pp1A9A/TW43vcWSSJI/AAAAAAAAGxw/45RdEVJAqaE/s220/IMG_4379%2B%25282%2529.jpg'/></author><thr:total>19</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13287483.post-113282880902523648</id><published>2005-11-24T10:40:00.000Z</published><updated>2006-03-25T14:26:08.173Z</updated><title type='text'>A escola primária</title><content type='html'>Há certas coisas que nunca se esquecem, e na minha memória guardo imagens intactas dos tempos passados na escola primária. Lembro-me da cara da minha professora que me aconpanhou os quatro anos. Lembro-me da sala de aula, que foi sempre a mesma. Lembro-me de alguns colegas na perfeição, dos mapas de Portugal e dos trabalhos feitos ao longo do ano expostos nas paredes.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;A escola era nas traseiras da minha casa, não tinha de atravessar uma única estrada para lá chegar, por isso, desde cedo, passei a ir sozinha. Ainda hoje, sempre que a vejo, surgem estas memórias em estilo &lt;em&gt;fast forward &lt;/em&gt;que me fazem viajar no tempo e sentir menina novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho a sensação que o Outono e o Inverno eram mais rigorosos nessa altura. Recordo-me da minha mãe vestir-me dois pares de collants, da chuva constante e das minha galochas de borracha. Recordo-me de existir na sala de aulas um aquecedor eléctrico virado para nós, e outro mais pequeno virado para os pés da professora. Recordo-me dos dias sem recreio por causa da chuva intensa. Recordo-me do leite com chocolate morno, que era distribuido pelos alunos num jarro de plástico enorme, daqueles que se usava para ir buscar água nas aldeias. Recordo-me da fila indiana para tomar o comprimido de fluór, e não posso deixar de recordar, por motivos bem menos agradáveis, a régua de madeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas os primeiros dias de escola não foram fáceis. Desde os três anos que andava num infantário, o Patinho Feio. Nessa altura e fora do que era habitual para a época, eles faziam a preparação para a primária de acordo com os resultados de testes psicotécnicos de cada criança. Quando entrei para a primária, já sabia escrever algumas palavras fazer algumas somas, e outras coisinhas de certo que simples. O primeiro dia de aulas ia feliz e aguardava-o com muita espectativa, mas após uma semana, em que ouvia e fazia apenas o que já sabia, começou o drama para a minha mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu recusava-me a ir, dizia que não queria lá estar porque já sabia tudo. Não queria e eram fitas e choros porque queria fazer mais coisas. O problema lá se resolveu, com a professora a estabelecer para mim e outro colega na mesma situação, um plano de estudo um pouco mais avançado. Motivada novamente, a ida para a escola passou a ser ansiada diariamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve no entanto, dois episódios dos quais nunca me irei esquecer e que se destacam nas minhas memórias. O primeiro que não abona nada a meu favor, mas que agora me faz rir a bom rir, ao imaginar a cara da minha mãe. Ambos aconteceram nas primeiras semanas de aulas da primeira classe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A professora tinha por hábito dialogar com os pais, e chamava-os à escola sempre que havia algo que o justificasse. Um dia, no meu caderno, ia o recado da professora a pedir que a minha mãe fosse ter com ela. Quando lá chegou, estava a professora a falar com uma mãe exaltada. Queixava-se, a alto e bom som, que a filha aparecia mordida e beliscada, que não podia ser, que a miúda que lhe fazia isso tinha de ser castigada e por aí fora. A professora desculpava-se, que era difícil vigiar todos os meninos durante o tempo todo, mas que iria tentar mudar a situação. A senhora bradava insultos, e a minha mãe começava a pensar se também eu sofreria dos mesmo ataques.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sai a senhora ainda a protestar, e a minha mãe aproxima-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A outra menina deve ser terrível! - diz ela referindo-se à menina que dava as dentadas e beliscaduras. Ela faz isso com todos?&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Não, é apenas com esta criança que é a colega de secretária, responde a professora. Mas sabe, essa menina é a sua!&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;E a minha mãe ia tenho um ataque! Ficou vermelha de vergonha e a pedir um buraco para se enfiar! A minha?! A Sandra?! Não pode! - dizia ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, a sua. Mas ela tem um motivo. É que esta menina não tem hábitos de higiene, e a sua diz que ela cheira mal e que não a quer ao pé dela. Então pica-a com o lápis, belisca-a e morde! Mas depois de as ter separado, a sua filha parou. Tentei chamar a atenção da mãe para a falta de higiene, mas como viu, vai ser muito difícil dialogar com ela. Chamei-a a si para a pôr a par da situação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha mãe sentia-se cada vez mais envergonhada e pedia desculpa a torto e a direito, que ia falar comigo e que a professora me chamasse à atenção sempre que fosse necessário. Não quero imaginar-me na pele da minha mãe, mas confesso, que agora à distância de tantos anos, não posso deixar de rir. Mas há uma coisa que me intriga, se a menina realmente cheirava mal, como é que eu era capaz de a morder?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num dia de chuva intensa, em que supostamente não havia intervalo para o recreio, eis que a chuva pára milagrosamente e temos direito a vir soltar a energia acumulada, em belas corridas e saltos em comprimento sobre poças de água. De repente, surge um cãozito no recreio. Todos andam atrás do cão e o cão, todo contente, não pára de correr de um lado para o outro. Às tantas, o cão volta a sair do recreio por onde entrou, por um buraco na rede, mesmo a um canto. Eu ponho-me de cócoras sobre o muro baixo do lado do recreio com a cabeça e ombros do lado de fora a dizer adeus ao cão. Uma fila de colegas a brincar às corridas, passa por trás de mim e há um que me dá um encontrão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toca a campainha para todos regressarem à sala. Todos regressam menos eu. Eu fiquei estendida no chão do lado de fora da escola, com um rio de sangue a sair debaixo de mim. Do lado de fora, o muro era mais alto, e com a queda devo ter desmaiado. Ninguém deu por nada pois, supostamente não havia recreio, e não havia mães ou avós por perto como habitualmente. Naquela parte recreio também não havia nenhum adulto e por isso, só passado algum tempo, quando passaram duas senhoras junto à escola é que me encontraram. Pegaram em mim e levaram-me à escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As &lt;em&gt;continas&lt;/em&gt;, nome usado na altura para as auxiliares de acção educativa, pegam em mim, e põe-me literalmente de pé com a cabeça inclinada sobre o lavatório da directora a escorrer o sangue que continuava a sair da minha cara, enquanto decidiam o que iriam fazer. Resolveram levar-me aos bombeiros e lá foi uma delas comigo. Eu que era uma miúda de seis anos, pequena e magricela, devia pesar toneladas sem parecer porque levaram-me pelo meu pé por mais de um quilómetro, com uma toalha turca ensopada em sangue colada à cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando chego aos bombeiros, lembro-me de ser arrancada da &lt;em&gt;contina&lt;/em&gt;, e do bombeiro gritar com ela sobre a forma que eu tinha chegado ali. Já tinha perdido muito sangue e fui levada de emergência para o hospital. Lembro-me dos safanões que senti na ambulância e de, chegados ao hospital, voarem comigo em cima da maca, por entre portas e mais portas até entrar numa sala de cirurgia. A pressa era tanta que me levaram para uma sala onde estavam a preparar um homem para uma cirurgia à cabeça!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que aconteceu, foi que caí em cima de uma garrafa de Sumol partida. Fiz um enorme golpe, do lábio inferior ao queixo, que por pouco me cortou os músculos que existem nessa zona. Usava óculos e no impacto, as lentes estalaram e com a pressão exercida fiquei com dois belos olhos &lt;em&gt;à belenenses&lt;/em&gt;. Desde aí, tenho uma bela cicatriz que sobrevive mesmo depois de três operações plásticas feitas enquanto era criança e que ainda suscita muita curiosidade de quem me conhece pela primeira vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A escola primária deixa-nos marcas para sempre, mas digamos que as minhas foram um pouco longe demais.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13287483-113282880902523648?l=costinhaslife.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://costinhaslife.blogspot.com/feeds/113282880902523648/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13287483&amp;postID=113282880902523648' title='26 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/113282880902523648'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/113282880902523648'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://costinhaslife.blogspot.com/2005/11/escola-primria.html' title='A escola primária'/><author><name>Costinhas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10671459330600777307</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-JHQT9Pp1A9A/TW43vcWSSJI/AAAAAAAAGxw/45RdEVJAqaE/s220/IMG_4379%2B%25282%2529.jpg'/></author><thr:total>26</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13287483.post-112876452275755328</id><published>2005-10-08T10:42:00.000+01:00</published><updated>2006-03-25T14:27:02.350Z</updated><title type='text'>O Natal</title><content type='html'>É dia 8 de Dezembro. Um dia aguardado com muita expectativa por nós. Hoje vamos montar o nosso pinheiro de Natal. É hoje que tudo se passa e que partimos em busca, por entre as mercearias do bairro, do pinheiro mais bonito que nos vai enfeitar a casa durante um mês. Quanto mais alto for melhor, dizemos nós. Mas a mãe, que já leva uns quantos anos de avanço, sabe que a casa não cresce para albergar aquela árvore imensa que surge imponente no meio das outras, e que nos teremos de contentar com uma mais pequena.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Redonda não, pedimos. Um pinheiro é assim bicudo, mãe, explicamos para que não restem dúvidas. Por entre aqueles ramos de pinheiro manso, tentamos achar como que por magia, um belíssimo exemplar de pinheiro nórdico, como os que se vêem nos filmes de Natal. Nunca achámos esse pinheiro, mas o que escolhíamos para nos fazer companhia nesta quadra, era sempre lindo, ou quase sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Regressamos a casa com o passo apressado. Não há tempo a perder, temos de enfeitar a nossa árvore de Natal. Vamos buscar o vaso de barro e as pedras da calçada que seguram a árvore no sítio. Afastam-se os móveis para que ela tenha lugar de destaque na nossa sala. Enquanto a mãe, vai buscar a caixa com os enfeites, que servem ano após ano, nós tentamos escolher qual é o lado mais bonito da árvore. Separam-se as fitas, desenrolam-se as luzes. Separam-se as peças do presépio, bastante marcadas pelas mãozinhas de duas crianças. E começa a cerimónia de vestir a árvore de luz e de cor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro as luzes, a percorrer toda a árvore. De seguida as fitas amarelas, vermelhas e azuis. Depois as bolas e sinos de diferentes tamanhos e formas mas sempre muito coloridos. Vai-se ouvindo: Uma árvore de Natal tem de ter muitas cores, mãe! Estão duas bolas amarelas juntas! Põe antes esta azul. Aí fica feio. Oh mãe! Olha ele que não sabe por as fitas! Oh mãe! Ela não me deixa fazer à minha maneira. Pouco a pouco a árvore ganha vida. Um pouco de algodão faz as vezes da neve. A mãe esconde o vaso com papel de embrulho e põe-lhe um grande laço. Está quase tudo pronto. Só falta o presépio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Põe-se uma folha verde no chão. Com um pouco de prata, inventamos um rio, onde o pescador e a lavadeira vão passar os seus dias. Um pouco de musgo serve de pasto às ovelhas, vacas e galinhas dos Pin-y-Pons. A casinha de palha, alberga o Menino Jesus, os seus pais, umas quantas ovelhas e uma vaca deitada por trás do Menino, para o manter quente. Os três Reis Magos vão a caminho, no cimo do monte feito de papel amachucado. Colocam-se luzinhas à volta do presépio e por cima do Menino. Recortam-se e pintam-se peixinhos de papel que são lançados ao rio. Pinta-se uma estrela que é colocada no telhado, para que os Reis Magos não se percam no seu caminho. Juntam-se umas quantas pedrinhas a ladear o percurso do rio, e um poço de água fresca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chega o momento de acender as luzes. E eis que os nossos olhos presenciam um momento único. As luzes piscam, e as bolas coloridas reflectem essa luz. Tudo brilha, até o nosso sorriso. Apaga a luz mãe! Apaga a luz, pedimos-lhe em coro. Na escuridão tudo ganha outra vida. A nossa árvore é a mais bonita. O nosso presépio também. Mas, depois da excitação do momento, reparamos que ainda não está completa. A árvore continua despida de presentes. A mãe vai buscar então as nossas prendas surpresa. Uma para cada um. Temos autorização para abanar, apalpar mas nunca para abrir. Quando chega ao dia de Natal, o papel está gasto de tanto aperto mas continuamos sem saber o que são. Lembro-me em particular de um ano, que foi especialmente difícil. A minha era uma pá e uma vassoura em lata e a do meu irmão um jogo de Mikado. O que sofremos neste ano. Foi tanto ou tão pouco que ainda me lembro do papel de embrulho que vestia estas prendas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São estas as únicas prendas, que sabemos serem para nós, que vão estar na árvore. As restantes só apareceram na chaminé, na manhã do dia de Natal. Ainda hoje estou para descobrir como é que a minha mãe conseguia manter escondidos, numa casa que não era grande, todos os nossos presentes sem que os descobríssemos. E o que nós procurávamos! A verdade é que quando acordávamos nesse dia, a surpresa era tanta que ficávamos parados por instantes à procura da prenda surpresa que identificava o nosso monte de prendas! Esta era a primeira a ser aberta porque o coração já não aguentava mais tanta curiosidade! Em geral, o meu irmão rasgava os embrulhos a uma velocidade incrível e eu abria tudo muito lentamente a fazer render as prendas. Havia sempre pelo menos um par de cuecas e meias das tias, um pijama da avó e uma nota de quinhentos escudos da vizinha do lado, para cada um.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, mesmo assim falta qualquer coisa à árvore. Eis que a mãe regressa. Traz com ela o toque final. Sinos, bolas e bichinhos de chocolate envoltos em belas pratas! Sim, com estes no lugar a árvore fica finalmente completa! Tu pões os teus que eu ponho os meus, dizemos um para o outro. São sempre dois de cada: duas bolas, dois sinos, duas joaninhas, etc. Não se esqueçam que só podem comer os chocolates no dia de Reis, lembra a mãe. A mim não me custa nada que até nem gosto, mas para o meu irmão é uma verdadeira prova de resistência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi por isso, que ele se tornou mestre na arte de tirar o chocolate sem estragar a forma à prata. Com muito jeitinho (e sem que nunca ninguém conseguisse descobrir como é que ele fazia), conseguia comer cada chocolate, os dele e os meus, mas sem que se notasse. A minha mãe ia procedendo à inspecção de vez em quando, que consistia em apertar cada enfeite de chocolate, para ver os que já estavam vazios. Eu chorava baba e ranho quando descobria que ele tinha comido uns dos meus, embora não gostasse e nunca comesse mais do que uma dentada de chocolate. Mas para ele, tanto chocolate pendurado à mão de semear era um autêntico suplício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É dia 8 de Dezembro. E eu, enquanto tiro o meu pinheiro nórdico perfeito, de dentro da caixa de papelão que lhe serve de casa durante o ano, e vou buscar os enfeites de vidro de vários tons mas de apenas duas cores, dos enfeites meticulosamente escolhidos para combinar com o resto da decoração e as luzes todas brancas. Sinto falta das bolas de plástico, das fitas pirosas e dos animais de Pin-y-Pon que faziam as delícias de duas crianças. Sinto falta dos Natais passados e planeio os que estão para vir, para que duas crianças, desta vez as minhas, tenham exactamente as mesmas recordações que eu tive.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13287483-112876452275755328?l=costinhaslife.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://costinhaslife.blogspot.com/feeds/112876452275755328/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13287483&amp;postID=112876452275755328' title='30 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/112876452275755328'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/112876452275755328'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://costinhaslife.blogspot.com/2005/10/o-natal.html' title='O Natal'/><author><name>Costinhas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10671459330600777307</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-JHQT9Pp1A9A/TW43vcWSSJI/AAAAAAAAGxw/45RdEVJAqaE/s220/IMG_4379%2B%25282%2529.jpg'/></author><thr:total>30</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13287483.post-112668210165178701</id><published>2005-09-14T08:14:00.000+01:00</published><updated>2006-03-25T14:28:29.406Z</updated><title type='text'>A hora</title><content type='html'>A ânsia de chegar a hora vai crescendo e apoderando-se do nosso todo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O relógio que não pára nos momentos eternos, que não anda nos que se querem acabados, continua inabalável. A falta que eles nos fazem. Eles, os que amamos, os que estão e os que não estão. Os que já estiveram. Os que queremos connosco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a hora que não chega, a ansiedade que não pára...&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Estarão bem? Comerão bem? Sentem a nossa falta? Nós sentimos definitivamente a falta que eles nos fazem. É como se não estivessemos completos, como se ao deixá-los tivessem levado com eles um pouco de nós, um pouco que não é assim tão pouco. Um pouco enorme, um pouco imenso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os minutos arrastam-se, lentos. Até chegar a hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a hora chega. Precipitamo-nos para eles como se disso dependesse a nossa existência. Filas, trânsito, lugares sentados ou de pé, encontrões, buzinões, pisadelas, sinais vermelhos, não têm importância. São coisas pequenas. Porque e só porque vamos ter com eles. É o que interessa. A única coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E já está. O momento, a hora chegou. Estamos juntos. Um abraço apertado, um beijo repenicado enche-nos o coração de alegria e a face ilumina-se. Acabou. Estamos completos outra vez. Não nos falta nada. Absolutamente nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que amanhã chegue novamente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;(texto originalmente escrito no Costinhas e não só... em Janeiro de 2005)&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13287483-112668210165178701?l=costinhaslife.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://costinhaslife.blogspot.com/feeds/112668210165178701/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13287483&amp;postID=112668210165178701' title='17 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/112668210165178701'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/112668210165178701'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://costinhaslife.blogspot.com/2005/09/hora.html' title='A hora'/><author><name>Costinhas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10671459330600777307</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-JHQT9Pp1A9A/TW43vcWSSJI/AAAAAAAAGxw/45RdEVJAqaE/s220/IMG_4379%2B%25282%2529.jpg'/></author><thr:total>17</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13287483.post-112414415391446446</id><published>2005-08-16T15:15:00.000+01:00</published><updated>2006-03-25T14:29:36.806Z</updated><title type='text'>Férias de Agosto</title><content type='html'>Agosto. Mês dos emigrantes e migrantes por excelência. Mês em que se deixam as grandes cidades para regressar às pequenas aldeias presas nos costumes do passado e perdidas no meio de montes e vales. O destino é sempre o mesmo e aguardado com emoção. Regressamos à terra que nos viu crescer, quer tenha sido apenas nos dias quentes de verão ou durante o ano inteiro, e procuramos reencontrar o nosso passado. A nossa infância.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Quem começa uma viagem em direcção à aldeia, além do carro atestado até ao tecto, leva sempre uma boa dose de expectativa e não vê a hora de chegar. A viagem é feita a rever mentalmente férias antigas, a antecipar noites de farra e dias bem passados na companhia dos amigos de verão. Atravessemos um ou mais países até chegar ao destino, a viagem parece como que interminável. No decorrer, fala-se do tempo que, antigamente, se perdia nas viagens, nas condições das estradas, ou nas camionetas sem ar condicionado que faziam as vezes dos carros de família. Demoramos menos de metade desse tempo, mas continuamos a desejar que não fosse tão longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os últimos dois quilómetros são feitos apressadamente, de ar condicionado desligado e vidros abertos. As mãos tentam agarrar o ar puro que se cheira e um sorrido ilumina a cara. As curvas e contracurvas apertadas sem visibilidade, justificam o uso da buzina, mas ao mesmo tempo, é como se ela também servisse para avisar a nossa chegada. Estamos a chegar e o nervoso miudinho cresce. Este ano a serra está mais verde, os fogos ainda não a fustigaram. É uma questão de tempo, sabemos. Depois de um fogo, a vegetação tem uns anos para se recompor. Assim que se torna demasiado densa para passar com o gado, ou não ajuda a chegar à festa que se faz em Agosto e que chama toda a gente das aldeias vizinhas, ou simplesmente, porque apeteceu a alguém, o fogo eis que surge de novo e que pinta de negro o que outrora era verdejante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E chegamos. Estamos de novo na nossa aldeia. Entramos na casa que nos acolhe e temos de lhe dar a volta completa, como que a avisar cada quarto da nossa chegada. Seja a nossa casa, a dos pais ou a dos avós, ela esperava-nos e nós tínhamos saudades dela. São casas geralmente sem luxos e com as cicatrizes de quem vai fazendo obras para resolver os problemas e necessidades que aparecem ano a ano. Mas na aldeia há casas para todos os gostos. Desde as pequenas casas de pedra e telhados e xisto e colmo, enegrecidas pelo fumo do lume que aquece a casa, que cozinha o caldo e fuma os enchidos; passando pelas casas de cores mais ou menos destoantes, desenhadas pelo próprio dono, que de construção percebe tanto como de grego; até às vivendas opulentas dos emigrantes, que ou reflectem as tendências dos seus países de acolhimento, ou são verdadeiras homenagens à aldeia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A aldeia ganha definitivamente nova vidas. Os que lá ficam todo o ano, alegram-se com o corrupio. Os cafés habituados ao silêncio voltam a encher-se de gente, e até as paredes amarelecidas pelo tempo ganham outra cor. Há festas e bailes para animar as noites, campeonatos de futebol e de sueca, que ocupam as tardes e noites dos homens. Troca-se a areia fina  pelos seixos, e o imenso mar salgado pelas águas límpidas e doces dos rios e riachos ladeados por densos arvoredos ou escondidos nas reentrâncias dos montes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas com a chegada dos filhos da terra, voltam também os problemas da época. A falta de água nas torneiras, e as eternas guerras por ela incendeiam-se. Quase todas as casas têm um depósito e uma bomba. Os mais velhos continuem a correr para as fontes, que os velhos hábitos não se perdem. Mas agora já não levam os cântaros de outros tempos mas sim garrafões de plástico, pois nem tudo o que é moderno é mau. As ruas estreitas e empedradas recebem carros a mais para as suas capacidades. As noites calmas e o sossego de quem já não está para brincadeiras é perturbado por cortejos, animados pelo som de acordeões, bombos e gaitas de beiços, que param em cada adega e enchem os copos directamente das pipas. ?É caseiro e este é que é bom?, ?Este não tem aquelas porcarias que os outros levam?, ?Este é puro?, pelo menos é o que dizem os entendidos a cada copo que bebem, e que ninguém ouse contrariar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O céu à noite enche-se de estrelas. São tantas, mas tantas, que poderíamos passar uma noite inteira a contá-las. Procuram-se as constelações conhecidas e inventam-se outras tantas. A Lua guarda este rebanho de estrelas, altiva e brilhante como nunca vista na cidade. Nos mais novos revêem-se os jogos que também nós já brincámos e as paixão de verão que também nós já vivemos. Vivemos com eles a magia dos trabalhos do campo e dos animais. Assiste-se ao nascimento de borregos, vitelos ou bácoros como se de um verdadeiro espectáculo se tratasse. Vão-se buscar os ovos ao galinheiro e não a uma prateleira de supermercado. Arrancam-se as alfaces e as cenouras para a sopa e as couves e o feijão para o conduto. Come-se o pão amassado e cozido por mãos experientes, acompanhado de presunto, salpicão e chouriças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas as férias não são eternas e os dias sucedem-se a uma velocidade estonteante. Antes de se regressar à cidade a que pertencemos durante o resto do ano, já a nostalgia nos invade. As saudades sentem-se mesmo antes de abandonar aquela aldeia. Carregam-se os carros com os frutos da terra, os vinhos,o pão e os enchidos caseiros. Adia-se o regresso o mais possível e derradeiros minutos são vividos intensamente. Percorremos, agora não uma, mas várias casas a despedirmo-nos de quem fica. Fechamos a casa que nos acolheu, ou abraçamos quem deixamos com ela, com uma lágrima a teimar fugir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os primeiros dois quilómetros são feitos devagar e em silêncio, de vidros abertos e olhos postos no que nos rodeia. Acenam-se mais umas quantas despedidas e as curvas que pareciam tão apertadas, parecem não mais precisar de buzina para serem feitas em segurança. Estamos a voltar para casa, e levamos a certeza de que, também, o próximo ano terá mais um Agosto. Vamos avançando na estrada, e estamos cada vez mais longe. No entanto, o nosso coração só nos irá reencontrar mais tarde, porque esse ficou preso naquela aldeia e na sua gente. Fechamos os olhos e ainda conseguimos percorrer as ruas, visitar as adegas, saborear o pão, conversar com os amigos e mergulhar nas águas dos rios. Nos próximos onze meses são estas memórias que nos trazem tantas vezes de volta e que encurtam a distância que nos separa no mapa. Porque o que se ama não se esquece, nem se deixa para trás.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13287483-112414415391446446?l=costinhaslife.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://costinhaslife.blogspot.com/feeds/112414415391446446/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13287483&amp;postID=112414415391446446' title='19 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/112414415391446446'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/112414415391446446'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://costinhaslife.blogspot.com/2005/08/frias-de-agosto.html' title='Férias de Agosto'/><author><name>Costinhas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10671459330600777307</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-JHQT9Pp1A9A/TW43vcWSSJI/AAAAAAAAGxw/45RdEVJAqaE/s220/IMG_4379%2B%25282%2529.jpg'/></author><thr:total>19</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13287483.post-112259633648944526</id><published>2005-07-29T00:57:00.000+01:00</published><updated>2006-03-25T14:31:22.926Z</updated><title type='text'>A vida</title><content type='html'>Que dia é hoje? - Penso eu. Rapidamente auxilio-me do calendário ali no canto do ecrã para desvanecer qualquer dúvida. É mesmo hoje. Outra coisa não seria de esperar. Mas se é hoje, quer dizer que a minha história já se passou há muito tempo. Se calhar nem foi assim há tanto tempo. É a minha mania de viver o dia de hoje, de pôr o passado lá bem para trás e o que vem ainda bem longe. Mas adiante e passemos à história. Afinal, foi isso que aqui vim contar.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Estamos no Outono. Num Outono sem chuva e muito sol. Digo estamos, porque estava eu e a minha bebé bem dentro de mim. O tempo entre o momento em que a gerei e a hora em que estou quase a trazê-la ao mundo passou-se num ápice. Na realidade, passou-se à velocidade que todo o tempo passa, mas agora que estou prestes a deixar de a sentir dentro de mim, parece-me que foi tudo muito rápido. Rápido até demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Correu tudo tão bem. Tão calmamente, sem nenhumas daquelas queixas que assolam as grávidas. Nem enjoos nem desejos. Bom, em boa verdade, aqueles dois cálices de Favaios que bebi de um trago, ainda desconhecendo o meu estado de graça, foi fruto de uma vontade incontrolável de os beber. Logo eu que raramente bebo. Quanto muito, um belo vinho verde branco a acompanhar uma boa refeição. Apenas uns problemas de má circulação que obrigaram ao uso de meias de compressão no verão mais quente dos últimos sei lá quantos anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é certo é que estou a horas de ver cara a cara o meu bem mais precioso. Ela que me acompanhou durante trinta e nove semanas e uns dias, que me fustigou com os seus pontapés e contorcionismos, divertindo olhares alheios e atónitos ao verem tais movimentos numa barriga. Ela que não me deixava dormir senão sobre o meu lado esquerdo, tendo eu sempre dormido sobre o meu lado direito. Ela que gostava de ouvir músicas cantadas pela mamã. Ela que durante a noite, enquanto eu dormia, brincava com o seu papá respondendo às suas festas com verdadeiros pulos e pontapés de alegria, num momento só deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela estava quase a mostrar mais um pouco de si. Que o nariz era igualzinho ao do pai isso já se sabia, pois tinha feito questão de o mostrar na última ecografia. Sabia também que tinha algum cabelo e que era um bebé cheio de energia. Sabia que ela não estava a dar indícios de querer abandonar aquela piscina aquecida e que o meu corpo também não dava sinais de se querer livrar dela. Optámos por dar-te um empurrãozinho, e dessa forma ter a presença garantida do médico que sempre nos seguiu, a ti e a mim, nesse momento crucial das nossas vidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É de madrugada. Acordo com umas moínhas que não dão sinais de desaparecer. Entre o desconforto da dor, o sono que não desapareceu totalmente e a alegria por sentir o primeiro sinal, levanto-me e volto-me a deitar num belo banho de água tépida. A dor acalma, o sono esvai-se e a alegria aumenta. Começam-se então a contar os tempos. As dores que se tornam cada vez mais presentes. O nervoso que começa a querer controlar as minhas acções a fazer-me esquecer da teoria que aprendi. A manhã demora a chegar, e não vejo a hora de entrar no carro e sair na tua direcção. Mas que parvoíce, tu estás comigo! Mas é como se não estivesses. Como se agora para te ter realmente fosse necessário chegar a um outro lugar, como se não bastasse pousar a mão na minha barriga,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saímos. É necessário parar para pôr gasóleo. Típico. Aproveita-se e compram-se os jornais do dia para guardar, e um Noddy de peluche para oferecer ao nosso afilhado como se fosse ela a trazer. Depósito atestado, diário, semanal e desportivo, devidamente dobrados, prenda num saco e lá vamos nós. A espera de alguns minutos para dar entrada no quarto parece interminável. Movo-me naquela sala de espera como se fosse um animal enjaulado. Para a frente, para trás. Para a direita, para a esquerda. Festas e mais festas sobre a minha barriga endurecida, que tarde demais aprendi serem causadores de ainda mais dores, pois estimulavam as contracções. Entramos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe cada vez mais queixosa, ansiosa e facilmente irritável. O pai ao lado a ler o jornal tranquilamente. A mãe protesta que tem dores. O médico diz que a mãe não tem cara de quem vai ter um filho. A mãe espanta-se pois não sabe da existência desse tipo de cara, e indigna-se pois acha que a merece. O pai ri-se. A mãe desespera com o avançar das horas e com as contracções constantes. O pai diz pelo o telemóvel que a mãe nem tem assim tantas dores como isso. O médico tenta incentivar a filha a sair. A filha quer lá ficar. A mãe começa a bufar. O pai quase que adormece no cadeirão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As horas foram passando. O parto normal cada vez está mais distante e o que a mãe não queria nem por nada começa a afigurar-se como única opção. As contracções aumentam, a mãe perde o controle e tem finalmente a cara de quem vai ter um filho. O pai com os nervos ri-se dos nervos da mãe. A mãe ri-se com o pai. As dores apertam, e a mãe não se lembra de respirações ou nenhuma outra técnica aprendida em tempos que já lá vão. É uma enfermeira que ajuda a mãe a recuperar o controle. Com controle ou sem ele, que venha mas é a anestesia que a mãe não foi feita para sofrer o que pode ser evitado. Ao fim de 18 horas a mãe consegue chegar a uns míseros seis dedos de dilatação. A mãe está cansada. A filha também. O pai é melhor estar caladinho que a mãe não está pelos ajustes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onze horas da noite. Levam-me para o bloco. Tremo naquela marquesa gelada. Associo a minha imagem assim deitada e com os meus braços amarrados, a situações de morte e não de vida. Que estupidez de pensamentos. Estou farta. Literalmente farta de esperar por ela. Farta, agoniada e tremo de frio. Só desejo a hora de ver tudo acabado e a possa ter finalmente nos braços. Tento acompanhar o que se passa à minha volta mas não consigo. Não consigo mais. Passam vinte horas desde que acordei e só penso em voltar a adormecer. Quero dormir, mas antes preciso de ouvi-la, vê-la e senti-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passam dois minutos de um novo dia, e eis que uma nova vida chora. Eis que ela surge cheia de garra. Eu sorrio e finalmente sossego. Levam-na e à sua espera está o pai todo de verde, como que saído de um &lt;i&gt;E.R.&lt;/i&gt; português. É ele quem a vê pela primeira vez. É ele quem a pega pela primeira vez. É ele que continua preocupado comigo sabendo-a bem. Ela está aí. Finalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chega então o momento de a ver cara a cara. Vem bem enrolada, de olhos bem abertos e muito calma. Olha para mim e arregala os olhos como quem pensa: &lt;i&gt;Bolas, esta é que é a minha mãe?! Xiii estou tramada! O que me foi calhar!&lt;/i&gt; Eu olho para ela e penso: &lt;i&gt;Bolas, é a minha cara chapada. Xiii está tramada! Podia ter tido mais sorte!&lt;/i&gt;. Beijo-a demoradamente e só lhe consigo sussurrar: &lt;i&gt;Amo-te filha&lt;/i&gt;.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13287483-112259633648944526?l=costinhaslife.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://costinhaslife.blogspot.com/feeds/112259633648944526/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13287483&amp;postID=112259633648944526' title='35 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/112259633648944526'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/112259633648944526'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://costinhaslife.blogspot.com/2005/07/vida.html' title='A vida'/><author><name>Costinhas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10671459330600777307</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-JHQT9Pp1A9A/TW43vcWSSJI/AAAAAAAAGxw/45RdEVJAqaE/s220/IMG_4379%2B%25282%2529.jpg'/></author><thr:total>35</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13287483.post-112248552792441144</id><published>2005-07-27T18:18:00.001+01:00</published><updated>2009-01-26T16:46:52.973Z</updated><title type='text'>Obrigada</title><content type='html'>O teclado à minha frente incita-me a escrever. Pede-me que lhe toque e faça dele o meio para partilhar o que me fervilha nas ideias. A vontade de o puxar para mim e de premir cada tecla aumenta, mas o problema é o que compor com essas teclas. Como unir as palavras que me fogem dos dedos. Como passar para o ecrã aquilo que deixa o coração acelerado.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Era tão mais fácil, debitar meia dúzia de frases da nossa sabedoria popular, e deixar que todos partilhassem connosco a sua concordância com tais verdades. Ou então, chocar meio mundo com a nossa versão mais que pessoal sobre alguma coisa verdadeiramente explosiva e receber mil uma críticas por tais palavras. Era tão mais fácil. Mas o que fazer, quando na verdade, o que nos apetece é agradecer a meio mundo. Agradecer as palavras que se dignam a nos escrever. O carinho que se prestam a nos dar. O apoio que nunca nos recusam. O estarem lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agradecer assim, de forma anónima mas pública, a quem está sempre ali para nós. Para o que der e vier. Agradecer de forma unívoca aos nossos amigos que estando longe, ou perto, não se esquecem de nós. Apetece-me gritar obrigada. Apetece-me beijar toda essa gente. Apetece-me apertar bem apertadinho no meu colo todos eles. Um a um. Cada um com uma palavra especial. Única.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico então, a olhar para o teclado. Os dedos impacientes que não se conseguem decidir por nenhuma tecla. As letras que teimam em não querer formar palavras, que por sua vez, não se pretendem unir em frases. Fico assim, com a vontade de escrever e não escrevo. Fico assim. Sem saber o que fazer com esta vontade. Suspiro e estico os dedos. Ajeito-me na cadeira que gira com a minha impaciência. Preparo-me. Fecho os olhos, e obrigo meia dúzia de letras a se unirem. Sorrio. E escrevo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Obrigada.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13287483-112248552792441144?l=costinhaslife.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://costinhaslife.blogspot.com/feeds/112248552792441144/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13287483&amp;postID=112248552792441144' title='28 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/112248552792441144'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/112248552792441144'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://costinhaslife.blogspot.com/2005/07/obrigada.html' title='Obrigada'/><author><name>Costinhas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10671459330600777307</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-JHQT9Pp1A9A/TW43vcWSSJI/AAAAAAAAGxw/45RdEVJAqaE/s220/IMG_4379%2B%25282%2529.jpg'/></author><thr:total>28</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13287483.post-112107553916728999</id><published>2005-07-11T10:52:00.000+01:00</published><updated>2006-03-25T14:31:40.826Z</updated><title type='text'>A morte</title><content type='html'>Ninguém está preparado para perder alguém que ama. Seja velho ou novo, esteja doente ou são que nem um pêro, seja uma morte natural ou acidental. A verdade é que vivemos na ilusão que a vida daqueles que amamos é eterna. Adiamos a resolução de conflitos, mantemos picardias infantis porque simplesmente não damos o braço a torcer. Não dizemos o quanto gostamos por nos parecer maricas e lamechas. A verdade é que acabamos por desperdiçar tempo do mais precioso que existe. A única coisa que não se compra. A única coisa que não tem retorno possível.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;É claro que não é sempre assim. É claro que quem amamos sabe que nós o sentimos. É claro que as relações não são feitas apenas de zangas. O problema é que tendemos a empolar os conflitos e a descuidar os carinhos. E o mais caricato é que não admitimos isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a morte de alguém nos bate à porta, se não é de alguém das nossas relações directas, vêm as comparações sobre o que custa lidar com as diferentes mortes. Se a morte é inesperada custa mais. Se a morte é resultado de uma doença prolongada é expectável logo mais suportável. Se a pessoa é mais velha custa menos, se a pessoa é nova custa mais. Se tinha filhos custa mais. Se não tem então custa menos. Tudo se ouve. Se isto, se aquilo, se coisíssima nenhuma porque a dor é insuportável quando quem parte é alguém que amamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha mãe tinha uma doença incurável e bastante agonizante. Após três anos de grande sofrimento, deixou-nos. Faltavam quinze dias para o meu casamento. Tinha 46 anos. A morte veio como uma bênção para ela. Para nós, foi a pior prova que tivemos de enfrentar. A morte era esperada mas nem por isso estávamos preparados para ela. No entanto, há várias reacções. Uns abatem-se, outros têm de ser fortes para ajudar os que não se aguentam. Os mais fracos choram. Os durões também, mas sozinhos. Uns perguntam-se porquê. Outros também mas adiantam logo resposta. Cada um tem de se defender como melhor sabe. Outros simplesmente não conseguem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o passar dos dias, tudo vai retomando a normalidade. Quem chorou connosco já não chora mais. Voltaram às suas vidas, e a sua presença quase sufocante nos dias em que tudo se passa, dá lugar a uma completa ausência. Temos de seguir em frente e encontrar novos motivos para sorrir. Temos de tirar uma lição de vida e pô-la em prática. Temos de avançar e sobreviver porque daqui a nada já ninguém se preocupa se temos ou não temos vontade de trabalhar e produzir como antigamente. Se não estamos a 100%. Se não nos apetece andarmos sempre com um sorriso nos lábios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aproveitam-se todas as mínimas comemorações para ficar alegres. O meu casamento foi uma delas. Outra, a comemoração do fim de curso do meu irmão com direito a visita do primeiro-ministro e tudo. Foi uma festarola. Umas largas centenas de polícias alinhadinhos e muito engraxadinhos debaixo da torreira de sol de Julho. Um sol tão intenso, que de vez em quando lá cai um, direitinho que nem um soldadinho de chumbo. Tudo filmado e fotografado, estávamos felizes. Muito felizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia seguinte amanheceu com um telefonema. Era o meu pai. Sabes do teu irmão, pergunta-me. Não? Digo eu sem saber muito bem o que pensar. É que quando acordámos, ele não estava em casa, e a tua avó diz que ele não voltou depois de ter ido passear o cão, explica. Já telefonaste à namorada? Insisto. Sim, ela também não sabe dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Demorámos 3 horas a reconstituir o seu percurso e a saber do seu paradeiro. O pior confirma-se. Encontrou um dos melhores amigos que já não via há algum tempo. O amigo tinha um carro novo e foram dar uma volta ao quarteirão. Um carro embateu no deles a poucos quilómetros de nossa casa. Morreram os dois. Tinham 22 anos. Nunca vimos o filme da sua formatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma morte inesperada de um filho no início de vida versus uma morte agonizante de uma mãe de três filhos. Qual custa mais aos que ficam? Qual é mais difícil de superar? Não é possível comparar. A morte não se aceita. Suporta-se. A revolta não desaparece. Aprende-se a lidar com ela. As saudades não acabam. Transformam-se. A falta que nos fazem não é preenchida com nada. O seu lugar nunca será ocupado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então o que nos resta, se o cenário é assim tão negro. Se a perda é assim tão insuportável, como é que vamos continuar? A resposta é simples. O que nos resta é viver. Viver o dia-a-dia a sério e não fingir que se vive. Aproveitar o tempo que temos para acarinhar os que amamos. Viver o presente, lembrando o passado, mas com os olhos no futuro. Viver para ser feliz. E fazer viver na nossa memória aqueles que já não se encontram ao alcance de um beijo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida é feita de histórias. Umas mais felizes que outras. Outras mais tristes. Existe para ser vivida e simplesmente um dia acaba. O que eu aprendi? Que não quero perder tempo com o que não interessa. Nem a dar valor a quem o não merece. Aprendi, que uma morte custa. Mas que a felicidade vai voltar a aparecer. Aprendi que existe sempre uma história pior que a nossa. Aprendi que há coisas que simplesmente não vale a pena comparar. Aprendi que todas as vidas têm o valor do nosso amor por elas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reaprendi a ser feliz. É o que interessa.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13287483-112107553916728999?l=costinhaslife.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://costinhaslife.blogspot.com/feeds/112107553916728999/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13287483&amp;postID=112107553916728999' title='54 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/112107553916728999'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/112107553916728999'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://costinhaslife.blogspot.com/2005/07/morte.html' title='A morte'/><author><name>Costinhas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10671459330600777307</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-JHQT9Pp1A9A/TW43vcWSSJI/AAAAAAAAGxw/45RdEVJAqaE/s220/IMG_4379%2B%25282%2529.jpg'/></author><thr:total>54</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13287483.post-112060543911820344</id><published>2005-07-06T00:16:00.000+01:00</published><updated>2006-03-25T14:33:49.893Z</updated><title type='text'>O milagre da vida</title><content type='html'>Todas as histórias de encantar começam com um simples, era uma vez. Acho que esta também devia de começar dessa maneira mas já não vou a tempo. O início que lhe dei foi outro. No entanto, e porque esta foi uma das minhas histórias mais felizes, vou fingir que ainda não escrevi nada e recomeçar. Porque nunca é tarde demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma vez, um sonho que foi tornado realidade.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Decidimos que estava na hora de termos um filho. A vontade foi crescendo e um dia simplesmente parece que nos caiu à frente. Estava na hora e ambos o desejávamos. Começámos então a nossa caminhada. Feitos os exames da praxe, deu-se início a um período de treinos não muito intensivo visto os afazeres profissionais consumirem-nos o tempo e a disposição. Os meses iam passando e em cada um deles, abria-se uma janelinha, mas assim que espreitávamos, levávamos com a portada na cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A alegria da espera por boas novas começou a transformar-se em desalento. Desde nova tinha a sensação que nunca conseguiria engravidar à primeira. O que custava agora era essa suspeita ser confirmada. Novas consultas e uns medicamentos para ajudar o que parecia não querer acontecer. De novo, nada parecia mudar. Nova consulta e novos exames. E a notícia chegou, não como uma bomba, mas como a simples explicação para o que simplesmente não funcionava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha um problema. Ou melhor dizendo, dois. Um dos ovários tinha vários quistos. O outro estava normal, mas tinha uma endometriose na trompa respectiva. Mas que raio de coisa é essa? Nunca ouvi falar. O médico prontamente explicou o que era, o que implicava e o que me esperava. Não iria conseguir engravidar, isso era certo. É preciso um milagre, foram as suas palavras. Vai ter de começar agora um tratamento e daqui a uns meses temos de fazer uma laparascopia, disse-me ele. Só depois saberemos o que vai ter de ser feito. Mas à partida, vamos ter de lhe simular uma menopausa e passados uns meses voltar a fazer reaparecer a menstruação, continuou. O mais certo é que não consiga engravidar sem assistência, mas por agora vamos ter de esperar, concluiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A notícia não me atirou ao chão. Para mim a única coisa que não tem solução é a morte. Por isso, se fosse preciso esperar uns anos, esperaria. Se não conseguisse engravidar sem ajuda médica, que viesse essa ajuda. Se não fosse capaz de engravidar mesmo, outras soluções iríamos saber encontrar. O amor de pais que tínhamos para dar não ia ficar de certo por gastar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim foi. Acabei o ano com uma ponta de desilusão pelo objectivo não cumprido nesse ano. Mas comecei outro com a frase mais corriqueira no pensamento, ano novo vida nova. Voltámos às nossas rotinas, às nossas vidinhas ocupadas com isto e aquilo, continuámos a amarmo-nos muito, independentemente de tudo resto. Continuámos. Porque a vida já nos deu umas bofetadas valentes e com elas aprendemos o significado de viver a vida. Vivemos todos os dias porque eles existem para serem vividos, e de preferência de bem com o mundo e com a nossa consciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, porque existe sempre um dia, depois do banho estranhei a proeminência do meu ventre. A minha barriga lisa tinha agora uma forma redonda. Melhor dizendo ovalada. Era dura. E conseguia, contorcionando-me qual odalisca, ora encostá-la à esquerda ora à direita. Pode-se dizer que era no mínimo estranho. Pode-se dizer que congelei de medo a pensar que a tal da endometriose andava a fazer das suas. Pode-se dizer que eu me calei muito caladinha durante uma semana enquanto observava aquela bola a ganhar forma no meu próprio corpo. O medo apoderava-se de mim. E o que eu detesto perder o controle das minhas emoções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de mais um treino de natação, mostro a barriga a uma amiga. Olha lá... achas que a minha barriga está maior? Perguntei-lhe eu adivinhando a resposta, óbvia, mas que precisava de ser confirmada por alguém que não eu. Acho! Exclama ela e continuou: Se calhar estás grávida! Não estou nada, estás parva? O médico disse que não era possível. Retorqui imediatamente. Pelo sim pelo não devias fazer o teste, disse-me. Vou pensar nisso, anui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caminho de regresso a casa, aquela possibilidade perseguia-me. Nem sequer a tinha posto. Achava que não era possível como tal nem sequer a tinha considerado. Mas podia ser, porque não. Não, não era. Que coisa! No entanto, não custa nada em fazer um desviozinho ali pelo hiper e comprar um teste. Mais um ou menos um também não aquece nem arrefece. Pois é mesmo isso, toca a sinalizar a mudança de sentido. Pisca para a direita e já está. A caminho da resposta para a dúvida que se começa a adensar nos pensamentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comprado o teste, resta esperar pela manhã. Falo com o meu pazinho? Não falo? Conto-lhe as minhas dúvidas? Se conto, fica também ele ansioso sem necessidade. O resultado já sei qual vai ser, embora o meu coração almejasse outro. O melhor é contar só depois do teste feito. É isso. Assim não se remexe na esperança adiada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chega a manhã. O dia está cinzento. Um dia que não apetece levantar da cama. Um dia que não ajuda a tirar o ar de sono da cara. Um dia que parecia não trazer boas notícias. Não faço teste nenhum, num dia como este. Não fiz. A minha amiga, perguntava: Já fizeste o teste? Respondia-lhe que não. Ai que me queres matar do coração! Dizia ela. Que giro, nunca pensei que pudessem outros ficar ainda mais ansiosos do que nós próprios. A verdade é que ela estava, e consequentemente também eu ficava e achava que aquela hipótese era tão boa como outra qualquer. Amanhã, disse-lhe eu. Amanhã se estiver bom tempo eu faço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Novamente uma luta ao fim do dia, para não contar as minhas desconfianças. Agora até parecia descobrir outros sinais. A fome devastadora. Um sono irreparável por mais horas que dormisse. A barriguinha tão linda. Ai! Fui apanhada pelo desejo de um sonho tornado realidade. Ai que me esqueci da impossibilidade do mesmo. Ai que nunca mais é amanhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei e a primeira coisa que faço é olhar pela janela. Olho e vejo o sol. O céu azul. É hoje porque o dia só promete coisas boas. E levanto-me com um sorriso e uns olhos mais remelosos que sei lá o quê! Fui com aquele nervoso miudinho. Abro a embalagem, leio as instruções. Faço pontaria e preparo-me para esperar o tempo indicado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma mancha amarelada começa a percorrer da esquerda para a direita a primeira janela. Ai vai ela, devagar mas segura a colorir o branco imaculado a prometer a maior alegria ou a maior desilução. Uma risca vermelha intensa aparece, e a mancha amarelada continua como se nada fosse. Está a caminhar para a segunda janela serena e sem pressa. Uma risca vermelha? Mas nas instruções falava em duas riscas cor-de-rosa! Deixa lá ver melhor, que ou isto está estragado ou não sei. Os meus pensamentos multiplicavam-se à velocidade da luz, enquanto aquela mancha segue o seu caminho. Está a chegar à janelinha final. Mas espera aí. A primeira janela é a que indica se o teste está positivo ou não! Continua a mancha, mais uma risca, desta vez de um rosa indubitável. A mancha prossegue até a janela não mostrar mais o seu andamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respira. Um, dois, três, inspira. Três, dois, um, expira. Não te esqueças de respirar. Um, dois, três, inspira. Estás grávida! Três, dois, um, expira. É verdade! Não é um sonho. Nas instruções diz que é positivo desde que apareça a primeira risca (e a segunda a dizer que o teste está válido) independentemente da intensidade da cor. Um, dois, três, inspira. Vais ser mãe! É melhor avisar o pai!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai dorme. Quem o conhece sabe que ele gosta de dormir. Quem o conhece sabe que lhe custa imenso acordar. Quem me conhece sabe que eu não me aguento muito tempo sem contar as minhas novidades. Pazinho! Acorda! Tenho uma prenda do Dia dos Namorados antecipada para te dar, dizia eu. Era dia 13 de Fevereiro, como se a data fizesse diferença. Uma quinta-feira. Mas isso agora também não interessa nada! Já me dás, balbucia ele. Desisto. Vou-me lavar e vestir com um sorriso idiota pregado na cara. Umas festinhas na barriga também já calham bem. Está na hora de voltar à carga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pazinho, tenho uma prenda para ti! Continuo. Tu vais gostar! Acrescento. Dás-me amanhã, diz ele a custo. Amanhã?! Está parvo?! Nem pensar, esta notícia é para dar agora! Então abre os olhos, ordeno-lhe pondo o teste a menos de um palmo do nariz dele. Ele abre um olho. Pisca-o umas três ou quatro vezes. Levanta um pouco a cara, enrugando a testa e semicerrando o único olho aberto para ver melhor. Abre o outro. Pisca os dois mais um bocadinho. Afasta-se para tentar descrutinar que coisa era aquela em frente ao seu nariz. A sério?! Pergunta-me ele. Sim!!! Respondo eu! Duas crianças aos pulos em cima da cama. Duas crianças a quem foi dado o presente que queriam pelo Natal. Simplesmente duas crianças eufóricas. Éramos nós! Íamos ser pais. Íamos ser pais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A alegria foi imediatamente espalhada pelos mais chegados. O médico, com a notícia esbracejou de contente e fez uma festa no consultório. O impossível tinha acontecido. Sem necessidade de tratamentos, de intervenções cirúrgicas ou de assistência de terceiros. Tive direito a um milagre. Ao mais importante, ao mais bonito, ao mais puro. Foi-me concedido o milagre da vida. E eu estarei, assim como o pai, eternamente agradecida!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Quero dedicar esta pequena história, a todos os casais que tentam conseguir também para eles este pequeno milagre. Que estas palavras vos possam dar um pouco mais de alento e não vos deixar desistir. Que também o final da vossa história seja no mínimo tão feliz como o desta.&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13287483-112060543911820344?l=costinhaslife.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://costinhaslife.blogspot.com/feeds/112060543911820344/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13287483&amp;postID=112060543911820344' title='44 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/112060543911820344'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/112060543911820344'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://costinhaslife.blogspot.com/2005/07/o-milagre-da-vida.html' title='O milagre da vida'/><author><name>Costinhas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10671459330600777307</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-JHQT9Pp1A9A/TW43vcWSSJI/AAAAAAAAGxw/45RdEVJAqaE/s220/IMG_4379%2B%25282%2529.jpg'/></author><thr:total>44</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13287483.post-111886369040101973</id><published>2005-06-15T20:26:00.000+01:00</published><updated>2006-03-25T14:39:31.206Z</updated><title type='text'>A maçã riscadinha</title><content type='html'>Quando era miúda, não comia nada. Simplesmente porque não tinha fome. Lembro-me perfeitamente de estar horas em frente a um prato frio de comida e não ter fome para comer o que outros achavam que era o mínimo necessário ao meu bem-estar. A verdade é que comia e dormia pouco. Nem sei como é que a minha mãe ainda arriscou a ter mais dois filhos. O que eu gostava mesmo era de leitinho, e não havia dia em que me deitasse sem o meu leitinho bom, ou seja, leitinho morno devidamente acondicionado num biberão.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Já não me lembro que idade teria, mas era certamente muito pequena, quando tive de ser operada a uma hérnia umbilical. Nada de dramas para os pais, porque seria uma intervenção relativamente simples, a única restrição era eu não comer nada algumas horas antes da operação e que a última refeição fosse bastante ligeira. Pais sossegados, pois como é bom de ver, esta restrição não oferecia qualquer preocupação a quem tem uma menina que não gosta de comer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta forma e marcado o dia da operação, o meu pai leva-me a uma loja de brinquedos para escolher uma prenda, o eleito foi um boneco de cabelo louro encaracolado e corpo de espuma, a qual chamei de Chiquinho. Ou foi esse, ou uma boneca de cabelo liso, grosso e castanho-escuro, chamada Matilde. Não me lembro bem, a memória desses tempos é traiçoeira e mistura tudo numa amálgama de recordações. Cabe-me agora a árdua tarefa de as destrinçar e atribuir uma data e local aceitáveis a todas elas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prenda comprada, voltamos para casa, onde uma mãe ansiosa tem a belíssima ideia de perguntar a uma filha, habitualmente sem fome, o que queria almoçar. Hum, olha está-me mesmo a apetecer dobrada com feijão branco, disse eu com o ar mais natural do mundo. Espantada com tal desejo pergunta-me: Mas não queres antes um bifinho com batatinhas fritas? Ela conhecia a filha que tinha, e sabia que depois de ter metido uma coisa na cabeça não havia quem me fizesse mudar de opinião, por isso a resposta seguinte era a esperada: Não! Quero dobrada com feijão branco! Já disse. Pois, nesse dia nem houve dobrada com feijão branco para o almoço, nem uma certa menina almoçou! A minha mãe habituada com tais reacções nem ficou preocupada. Em geral aguentava-me até ao jantar sem comer nada, por isso não fez caso. Vai arranjar a tua cestinha com o que queres levar, disse-me ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá fomos nós, pai, mãe e filha com o seu boneco novo e cesta de palhinha com a bonecada que lhe apeteceu lá colocar. Chegados à sala de espera, vários meninos, todos a aguardarem pela sua vez e a fazerem a cabeça em água aos respectivos progenitores. As horas foram passando e o atraso começou a fazer-se sentir, e uma menina que habitualmente não come começou a ficar com fome. Apetecia-lhe comer e tinha sede. A mãe respondia que não, não podia e tinha de esperar mais um bocadinho. A menina lá voltava a insistir, tinha fome. Onde já se viu! Uma criança que nunca tem fome a pedir comida! Tudo bem, a mãe não cede, o pai também não. A menina não desarma e vai buscar a sua malinha, abre-a e de dentro dela, por entre os brinquedos sai a solução para os seus problemas. Uma bela maçã riscadinha, que exalava um perfume adocicado e que apurava o paladar daquela menina que já não aguentava mais. De boquita aberta, a maçã aproxima-se perigosamente. Por fim, a sua fome ia ser saciada. Os lábios tocam na casca, os olhos fecham-se, um sorriso travesso escapa pelos cantos daquela boquinha ávida por uma dentada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pára!!! Não faças isso! Ouve-se do outro canto da sala, mas cada vez mais perto da menina, que só por um acaso era eu própria, e da sua maçã. A mãe já disse que não podias comer, onde é que foste buscar a maçã, perguntou-me. Trouxe de casa, porque podia ficar com fome, respondi eu, a seguir a maçã com os olhos. Tens de esperar mais um bocadinho, agora não podes comer nada, explicou-me a minha mãe. Mas eu não queria explicação nenhuma, eu queria era comer qualquer coisita e de preferência a maçã que tinha trazido. A vontade não é satisfeita por isso, toca a afinar as goelas e chorar a plenos pulmões, a ver se assim se consegue alguma coisa. É quando estou a chorar baba e ranho que chega a enfermeira para me vir buscar. Logo a seguir, veio mais um enfermeiro, para dar uma ajudinha, a menina, ou melhor eu, não quer colaborar. O melhor mesmo, era vir a equipa do bloco. Toda! E foi assim, segurada pelas pernas, braços e cabeça por dois médicos e três enfermeiros que cruzei as portas de batente que davam acesso ao bloco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu pontapeei, eu mordi, eu arranhei, eu fiz tudo ao meu alcance para conseguir comer a minha maçã. Chorei e pedi por ela, até as várias luzes que me ofuscavam por cima da marquesa se tornarem apenas numa. As vozes que me tentavam sossegar foram ajudadas pela força da droga e lá finalmente adormeci. Finda a operação, fui levada para o quarto, num sono angelical que não denunciava a fúria que o precedeu. Terminado o serviço no bloco, o cirurgião veio sentar-se à beira da minha cama e junto com a minha mãe esperou que acordasse. Ela pode acordar em sobressalto, explicou à minha mãe. Pode rebentar os pontos e nós não queremos isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha mãe olhou para este médico que ostentava dois belos arranhões na cara e uma dentada no pulso, de seguida olhou para mim e para a minha tranquilidade forçada. Estava preocupado e isso via-se. Esperaram os dois no silêncio de quem não sabe o que aí vem. Mexi-me, e os dois chegaram-se à frente. Virei a cara na direcção deles, abri um olho, de seguida o outro. Estremunhada, fito os dois. Por fim, depois de reconhecer a cara da minha mãe, ainda meio adormecida e num tom sofrido, disse: Quero a minha maçã riscadinha...&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13287483-111886369040101973?l=costinhaslife.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://costinhaslife.blogspot.com/feeds/111886369040101973/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13287483&amp;postID=111886369040101973' title='22 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/111886369040101973'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/111886369040101973'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://costinhaslife.blogspot.com/2005/06/ma-riscadinha.html' title='A maçã riscadinha'/><author><name>Costinhas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10671459330600777307</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-JHQT9Pp1A9A/TW43vcWSSJI/AAAAAAAAGxw/45RdEVJAqaE/s220/IMG_4379%2B%25282%2529.jpg'/></author><thr:total>22</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13287483.post-111830738518078071</id><published>2005-06-09T09:56:00.000+01:00</published><updated>2006-03-25T14:37:57.120Z</updated><title type='text'>O chapéu-de-chuva</title><content type='html'>Agora há a pretensão de que vivemos numa era de insegurança. Que a violência e os roubos nas escolas são imensos. Que não podemos andar sozinhos na rua à noite. Que as portas dos carros têm de andar fechadas. Que isto e que aquilo. Dizemos sempre, no meu tempo isto não era assim. No meu tempo eu brincava na rua e não havia perigo. No meu tempo ia para a escola sozinha. No meu tempo. Mas afinal qual é o nosso tempo? Não estamos a viver ainda o nosso tempo? Ou será que este já não nos pertence... fico na dúvida. Mas definitivamente no meu tempo não era assim. Volto então atrás nesse tempo até ao que me pertenceu. &lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Escolho a pré-adolescência que é rica de emoções, boas e más. Nesta idade eu era uma miudita na verdadeira acepção do termo. Magricela, eu era composta basicamente por pele, osso e músculo porque fazia ginástica de competição e, como tal, tinha umas valentes batatas nas pernas e nos braços. Tinha uns óculos de massa transparentes, demasiadamente grandes para as feições delgadas, mas que foram escolhidos ao meu gosto na altura. As saias de ganga compridas e rodadas, com um cinto larguíssimo de elástico preto a ajustar a camisola de malha na cintura ainda por definir. O meu cabelo era longo e liso e, para rematar a pintura, tinha uns belos dentes de coelho. As cores da moda eram o azul eléctrico, o amarelo e o verde. Mas o verde era mesmo verde, nada destas inovações chamadas verde-alface. As cores queriam-se fortes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vasculho nas minhas memórias à procura dos colegas de escola. Ainda me lembro de alguns. Vejo a cara deles como se ainda ontem tivessem passado por mim. Algumas caras ainda têm nome, outras nem por isso. A escola não era um lugar fácil para mim. Tudo estava bem enquanto estava nas aulas. O intervalo é que era o pior. Aluna sempre de topo, a fealdade não ajudava nada e era obviamente um belo alvo de troça entre os colegas. Tinha amigos, obviamente. Mas é engraçado que as memórias que se guardam e que se tornam mais presentes não são as boas, antes pelo contrário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me por exemplo, de um dia chegar a casa a chorar compulsivamente, porque uma miúda, que eu sei descrever ao pormenor se assim quiser, me chamou um nome qualquer, e deste já não me recordo, que me caiu particularmente mal. Cheguei a casa e pedi consolo à minha protectora, a minha mãe. Naquela idade a minha mãe ainda tinha aquele brilho que todas as mães têm para os filhos de tenra idade. Ela era a minha mãe e não havia melhor do que ela. É claro que ao longo da adolescência as mães vão ficando um pouco mais opacas, mas isso não tem nada a ver com isto. Ela lá me consolou da forma que soube, e resolveu a questão dizendo, Olha, não penses mais nisso. A próxima vez que ela te chamar nomes pergunta-lhe se ela não tem espelhos em casa. E assim foi. A minha mãe tinha-me dado a poção mágica para os meus males. Fiquei confiante e ao mesmo tempo ansiosa por poder pôr em prática o meu plano de combate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não precisei de esperar muito, uns dias depois a desgraçada voltou à carga, mas ao invés de me encolher e de as lágrimas teimarem em sair, o meu peito encheu-se de ar, cresci dois centímetros e respondi-lhe, E tu?! Já te viste ao espelho ou não tens espelhos em casa?! Assim, tal e qual, letra por letra que me lembro bem. Vitória! Ela não teve resposta para dar e foi-se embora. Eu continuei o caminho inchada, como se tivesse acabado de ganhar os jogos olímpicos. Nunca mais ouvi um comentário dela, ouvi de outros como é bom de ver. Mas já não me incomodavam tanto. Até ao ponto de não me incomodarem mesmo. Até ao ponto de perceberem que não fazia sentido continuarem, porque não tinha o efeito desejado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas estes tempos que já não voltam trazem-me também outras memórias. E uma delas é a propósito da segurança nas escolas. No meu tempo, e lá estou eu a falar nele, também havia grupos de miúdos, que agora dão pelo nome de gangs, que infernizavam a vida aos outros à saída da escola. &lt;br /&gt;Queriam dinheiro, roupa, malas, ou aquilo a que conseguissem deitar a mão. Lembro-me particularmente de um dia de chuva. À saída para o almoço, a chuva deu tréguas e deixou-me fazer o caminho de casa sem ser necessário abrir o meu chapéu-de-chuva multicor. Era praticamente novo, quase tão novo como os dias de chuva que tinham chegado. Mas ao entrar em casa, a minha cara estava húmida, não da chuva que não tinha caído, mas das lágrimas que me corriam pela cara. A minha mãe perguntou-me o que se tinha passado e eu mostrei-lhe o meu guarda-chuva que se tinha transformado em dois. O meu guarda-chuva novinho em folha. Que eu tinha escolhido por ter cores tão vivas que me lembravam os dias quentes e as férias de Verão. Esse já não existia. A minha mãe hesitou em ralhar comigo, porque se estava a chorar não tinha feito aquilo por querer; mesmo assim perguntou-me desconfiada como é que tinha feito aquilo. Comecei então a explicar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha saído da escola quando uns miúdos se aproximaram e me pediram uns trocos. Os que iam comigo ignoraram e seguiram o seu caminho, que nestas coisas ninguém vê nada nem ouve nada. É andar em frente e pedir para que não reparem em ti. Eu disse que não tinha. Pediram-me a mala. Eu disse que não dava. Pediram-me o relógio e um deles chega-se para mo tirar. Eu saco do chapéu-de-chuva e zás, mesmo em cheio na cabeça do rapaz. Não dou, o relógio é meu. Remédio santo. Eles afastam-se, com um deles agarrado à cabeça. Eu sigo para casa com os trocos, a mala, o relógio e um chapéu partido. É engraçado, mas nunca mais se meteram comigo. Porque terá sido? Afinal, no meu tempo também se passavam coisas destas. Ai que saudades do meu chapéu-de-chuva.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13287483-111830738518078071?l=costinhaslife.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://costinhaslife.blogspot.com/feeds/111830738518078071/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13287483&amp;postID=111830738518078071' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/111830738518078071'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/111830738518078071'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://costinhaslife.blogspot.com/2005/06/o-chapu-de-chuva.html' title='O chapéu-de-chuva'/><author><name>Costinhas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10671459330600777307</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-JHQT9Pp1A9A/TW43vcWSSJI/AAAAAAAAGxw/45RdEVJAqaE/s220/IMG_4379%2B%25282%2529.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13287483.post-111793105277300056</id><published>2005-06-05T01:23:00.001+01:00</published><updated>2006-03-25T14:37:05.656Z</updated><title type='text'>Almoço com Deus</title><content type='html'>Suponhamos que estamos no dia de hoje. Podemos supor a data que quisermos porque o tempo em que ocorre esta história tanto pode ser hoje, como ontem ou amanhã. Mas como não tenho o dom de prever o que ainda não é, será melhor ficarmo-nos por aquilo que já conheço. Assim, suponhamos que foi ontem e pronto.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Eu considero-me ateia. Tomei esta decisão no 11º ano, durante uma das minhas aulas de Filosofia, onde debatemos a origem das religiões. Foi numa dessas aulas que finalmente encontrei as respostas para algumas perguntas que fervilhavam na minha mente. É óbvio que continuo cheia de questões da mesma natureza por resolver mas a idade é outra e a vontade de encontrar uma explicação também. Enfim, tomei consciência que definitivamente não me considerava católica e é isso que interessa agora. Eu acredito no poder dos Homens. Que somos nós os únicos culpados do bom e do mau. Que somos os únicos responsáveis pelo nosso sucesso ou desventura. Que somos nós e o acaso, a sorte ou o azar como lhe queiram chamar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, sou uma ateia tolerante. Em Roma sê romano. Sei rezar o Pai-nosso, a Ave-Maria e acompanhar o Terço. Assisto a missas se houver alguma razão para isso, e durante a missa sou tão católica como a pessoa que está ao meu lado. Para mim esse comportamento é apenas uma questão de respeito. Venho de uma família católica, com o casamento passei a fazer parte de uma família que ainda o é mais. Não vejo a necessidade de no final do jantar na casa de uma avó de 80 e tal anos, quando esta se prepara para rezar o terço com filhos e netos, levantar-me e sair dizendo: eu sou ateia, não rezo. A avó não ia compreender e levava aquilo como ofensa directa. Assim, embora evite os convites de jantar na casa daquela avó, quando estou junto-me à ladainha. Ao fazer isso, não sinto que tenha cedido nas minhas convicções nem a fazer nenhuma hipocrisia.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Isto tudo para dizer que almocei com Deus. Não sei se foi com o Deus em que acreditam, mas o Deus que eu escolhi para conhecer. Sim porque isto de escolher um Deus também tem muito que se lhe diga. Afinal quantas religiões adoram o mesmo Deus? Apenas lhe mudam o nome e os mandamentos. Mas o Deus como definição de si mesmo é comum a todas elas. Assim sendo, e lançado o desafio, escolhi para companhia o Deus em que eu não acredito mas que a acreditar seria esse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcamos almoço na minha casa. É na minha casa que eu recebo os amigos e portanto é aí que O quero receber. Se não fosse aqui podia ser em qualquer parte do mundo, desde que fosse tranquilo e sem pressas. Se não fosse aqui que fosse no meio da natureza que é a casa Dele. Nas nossas casas não há contas para pagar nem mesas que se querem vagas para os fregueses que hão-de vir. Nas nossas casas estamos de coração aberto e completamente à vontade. É por isso que não podia ser noutro lugar. Assim à hora marcada chega este Deus que não é o meu mas que morro de curiosidade por conhecer. Não há formalismos porque não há razão para existirem. Este Deus que eu imagino não é superior. É o Pai. Os pais nunca são superiores aos filhos, apenas mais experientes, mais vividos. Mas há muito respeito, porque o respeito deve-se até a quem não nos quer bem. E se há coisa que um Pai quer é ver os filhos bem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É servido o almoço. Por nós mesmos enquanto conversamos. Não me recordo do que constava a ementa. Sei que foi algo ligeiro e despretensioso. Porque o almoço não foi para alimentar o corpo mas sim a mente. E porquê está Ele a almoçar comigo? Logo eu, uma descrente no meio de tantos que rejubilariam simplesmente por O ver quanto mais se tivessem a honra de privar com Ele durante um almoço. Será para me convencer que realmente existe? Seja qual for o seu motivo a minha lista de perguntas é infinita. Mas se calhar era para me perguntar porque é que eu não acredito Nele. Porque é que eu voltei com a minha palavra atrás. Porque é que eu lhe pedi um favor, dizendo que se o visse realizado acreditaria e continuo sem acreditar. A resposta que lhe dei é muito simples. Sou humana. Os humanos erram e por muito que digam que admitem os seus erros, há coisas que nunca vamos conseguir mudar em nós próprios. Porque são intrínsecas do nosso ser. Porque são a definição do nosso eu. Porque se as corrigíssemos deixaríamos de ser nós próprios para passarmos a ser um eu de outro alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntou-me como eu via a Sua Igreja. Eu disse que adorava os edifícios construídos em Seu nome em tempos idos. Que me sentia em verdadeira paz dentro deles. Mas que não acreditava nos Homens que as tomavam como suas e que continuam em Seu nome a ditar regras de moral e bons costumes totalmente desenquadradas com a realidade actual e que às escondidas dos restantes as ignoravam e procediam a seu belo prazer. Disse-Lhe que a Igreja devia morar no coração dos Homens, e que os Seus ensinamentos deviam ser praticados por todos os que se consideram seus seguidores, não com hora marcada mas em todos os segundos das suas vidas. Que acho menos crentes do que eu, aqueles que O temem e cumprem com todos os ritos desde o acordar ao deitar, mas que findas as rezas não vêem os seus semelhantes como irmãos e são capazes das maiores judiarias para terem sucesso nos seus interesses terrenos. Digo-Lhe que afinal, se calhar até acredito Nele, mas que acredito mais ainda na fraqueza dos Homens e como tal, nunca podia acreditar em palavras supostamente escritas há tantas gerações atrás. As mesmas que já foram impostas de formas tão cruéis que não nos queremos lembrar agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A conversa segue a bom ritmo. A cada pergunta que faço, fico ainda com mais dúvidas por responder. O célebre dito "Deus escreve direito por linhas tortas" aplica-se literalmente à forma que Ele escolheu para me satisfazer a curiosidade. Conhece-me bem e sabe que eu não desarmo facilmente. Concedeu-me um desejo. Eu agradeci mas disse-lhe que Ele já mo tinha dado há alguns anos atrás. Disse-lhe que de facto tinha-me dado dois. Deu-me o que eu pedi em troca da minha crença, e libertou-me da minha promessa por saber não iria viver em paz com ela. Sabia que o pedido que Lhe fiz foi baseado na crença de outrem. Para benefício de outro que não eu. Concordou e estando a refeição a chegar ao fim pediu-me uma recordação para levar com Ele. Sorri e disse que já lhe tinha dado algo muito mais importante do que qualquer recordação. Que recordações são o que eu tenho neste momento para me sentir perto do que já Lhe dei. Que não Lhe quero dar mais nada, pois não sou assim tão pura de coração que consiga perdoar o que não tem perdão como Ele supostamente é capaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos em silêncio. Cada um com as suas memórias. Ele, porque conhece o futuro, com as visões do que me espera. Eu com os meus demónios a incitarem-me para lhe pedir contas sobre tudo o que já me tirou sem nenhuma outra justificação a não ser a da própria Lei da Vida. Ficamos assim, Ele em paz e eu numa verdadeira luta para não correr para os Seus pés e lhe pedir chorando que me sossegue a alma e deixe em paz com os meus fantasmas. Que me alivie o meu fardo. Que apague as saudades que me espremem o coração e que me fazem às vezes já não querer fazer parte deste mundo dos vivos só para não as sentir. Que me devolva quem Levou para Lhe fazer companhia à sua mesa. Ficamos em silêncio e é assim que continuamos por tempo que não contei. Se calhar nem nunca falámos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vem o café. Por mais açúcar que deite nunca fica tão doce como o milagre da vida. O milagre que me já foi concedido embora não Lho tenha pedido. Que não acredito que tenha sido Ele a dar-me. O silêncio foi instaurado e não se consegue quebrar. Concluo que as dúvidas que tinha não foram explicadas, apenas transformadas. As angústias continuam. A revolta agudiza-se. O silêncio mantém-se mas as minhas batalhas internas começam a ser vencidas. A Sua luz intensifica-se e começa a absorver o meu desassossego. Torna-se mais forte, mais intensa. Um calor invade-me e sorrio. Sinto-me renovada e com mais força para aceitar o que não posso mudar. Não consigo resistir e fecho os olhos para afastar o brilho imenso que me ofusca. Tento abrir os olhos, mas resistem-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto-o a afastar-se, mas ainda tenho coisas a perguntar. Esfrego os olhos e luto contra um sono que não sabia existir. Com muito custo olho na direcção dessa luz que me aquece e tento ver para além dela. Pelo entremeio das pálpebras consigo ver o sol que nasce. Que irrompe pela minha janela e se espalha pela minha cama. Acabo de despertar de um sono reparador sem perder de vista a luz que se infiltra por todo o meu corpo, que me aconchega como o regaço materno. Sinto-me tranquila e em paz comigo mesma. Que bela maneira de começar o dia.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13287483-111793105277300056?l=costinhaslife.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://costinhaslife.blogspot.com/feeds/111793105277300056/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13287483&amp;postID=111793105277300056' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/111793105277300056'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/111793105277300056'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://costinhaslife.blogspot.com/2005/06/almoo-com-deus_05.html' title='Almoço com Deus'/><author><name>Costinhas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10671459330600777307</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-JHQT9Pp1A9A/TW43vcWSSJI/AAAAAAAAGxw/45RdEVJAqaE/s220/IMG_4379%2B%25282%2529.jpg'/></author><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-13287483.post-111748695100272699</id><published>2005-05-30T21:50:00.000+01:00</published><updated>2006-03-25T14:35:37.403Z</updated><title type='text'>O elevador...</title><content type='html'>Já foi há algum tempo. Mais precisamente quando entrei na casa dos 20 anos. A minha vida aí era atribulada. Trabalhava, estudava e ainda tinha tempo para alguma vadiagem com os amigos. A verdade é que se o corpo parecia aguentar todas as horas que a vontade pedisse a cabeça começava a evidenciar sinais de cansaço. Ora como para grandes males há grandes remédios toca a ir abastecendo com uns quantos cafés ao longo do dia.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Acordei cedo. Mais cedo do que o habitual. A missão era fazer umas análises de rotina e ir para a empresa de um amigo ajudá-lo com uma base de dados. Fui sem grande vontade porque eu e as agulhas não somos grandes companheiras. Aliás, agulhas e objectos cortantes em geral. Não gosto nem de ver imagens que envolvam manuseamento de tais objectos. Arrepiam-me. Filmes de acção então nem se fala, nem uma luta de murros consigo ver sem me encolher umas trinta vezes e esconder a cara nas mãos ou no ombro mais próximo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A manhã era de primavera e ainda pedia um agasalho. Fui ligeirinha para ver de despachava tudo e ficava mais calma. À chegada, a simpatia habitual. Troca de impressos, dar os dados, pagar e aguardar na sala. Toca a ler uma revistinha colocada para o efeito. É de há três meses atrás. Não faz mal porque revistas é coisa que não leio mesmo. Gasto o tempo a folheá-la de trás para a frente como convém. Sou chamada. Levanto-me e lá vou eu com um sorriso amarelo e o nervoso miudinho a querer tomar posse das minhas pernas. Sento-me e arregaço a manga do braço esquerdo. Não sei porquê mas tenho a ideia que neste dói menos. Vou conversando para me distrair. Eu aliás converso por tudo e por nada. Estar calada para mim é um sacrifício . Nervosa então nem se fala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A conversa roça o tema do meu medo. Dou sempre a entender este pânico para ver se consigo um pouco mais de delicadeza no momento em que a agulha se aproxima do meu braço. &lt;br /&gt;- As suas veias são óptimas, diz a técnica ou enfermeira ou outra coisa qualquer pois não sei que nome é que lhe hei-de dar. Fica técnica, para facilitar.&lt;br /&gt;- Não vamos ter problemas, basta descontrair-se. Inicio então meu processo de descontracção. Olho para o lado para afastar do meu campo de visão tal imagem. E a pensar que quando era miúda gostava de ver tudo do início ao fim e ainda fazia perguntas. Entretanto cresci e tornei-me maricas. Aiii! Já está e nem dei conta. A conversa deu para enganar e depois de a agulha se afastar novamente tenho uma coragem de leão. Não percebo porque não me deu um chupa e disse: Que forte! Parabéns pela coragem! Não percebo, mas ainda bem que não o fez porque até nem gosto de chupas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico sentada com o dedo sobre o algodão a pressionar a picadela. A técnica vai distribuindo o sangue por vários tubos. Sempre a conversar. A conversa é a minha tábua de salvação. &lt;br /&gt;- Sente-se bem? Ora levante-se lá. Tem tonturas!? Não, respondo eu, toda feliz. Vamos então dar a vez a outro. Saio e completo a missão na recepção onde me dão o papelito com a data em que posso levantar os resultados. Mais um pouco de conversa e até à próxima.&lt;br /&gt;Chamo o elevador. O prédio no centro de Lisboa não é novo mas o elevador até que não é mau. Totalmente espelhado no interior e a porta encolhe sozinha para um dos lados. Aparte do pequeno solavanco nas paragens e no arranque desliza suavemente. E eis que chega. A porta abre-se e eu entro. O elevador só para mim. Que bom. Detesto elevadores cheios. Primo o zero e a porta fecha-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei onde estou. Viro-me para todos os lados e não me consigo mexer. Está escuro não consigo ver nada. Tento bater com os pés e com as mãos mas a pressão que sinto é muito grande. Estou enterrada viva penso eu, e o pânico instala-se. Tento gritar, chamar por socorro mas ninguém me vale. Nem sei se me ouvem. Bato com toda a força que tenho mas a pressão é muito grande. Mas o que aconteceu?, penso eu. O que é que se passou? Ai que treta! Mas o que é que se passa aqui? Eu nem me lembro onde é que estava antes. Mas alguém me ouve?! Falta-me o ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente a pressão é aliviada. Consigo esticar uma perna e empurrar o peso que me comprime e prende os movimentos. Apoio-me nos braços e dou por mim a gritar. A gritar e a chorar num choro soluçado de quem tenta respirar e não consegue. Surge alguém ao pé de mim. Agarra-me e ajuda-me a levantar. Faz-me perguntas que eu não ouço mas vejo que faz. A minha cabeça parece que foi colocada num torno, sinto-a a latejar e uma dor que vai e vem. Olho em meu redor. Estou na saída do prédio da clínica. Não sei o que se passou. Tenho um senhor de idade e uma velhota bem velhota a dispararem perguntas em todas as direcções. A velhota vai chamar alguém da clínica para me vir acudir. O homem continua a perguntar: O que se passou?! Começo finalmente a ouvir.&lt;br /&gt;- Mas foi assaltada?! Deram-lhe um tiro? Uma facada?!, pergunta-me com um ar ávido de notícia de primeira página. O quê que ele está a dizer? Facada?! Eu continuo a chorar sem me conseguir controlar, e tento falar. Eu que falo tanto não consegui dizer nada. Meio a soluçar lá vou tentando balbuciar o que sabia. Ele com uma cara de pânico percorre com os olhos o meu corpo em busca de sangue. Não vê. Eu... só... fui... tirar... sangue... digo eu no meio daquele pranto sem controlo. Estraguei tudo. Ele afasta-se de rompante.&lt;br /&gt;- O quê?! Não foi assaltada? Ninguém lhe fez mal?!, trocando o ar assustado pelo ar da mais profunda frustração. Foi só tirar sangue?! E é preciso um filme destes?!&lt;br /&gt;Pois perdoem-me a desilusão mas felizmente não fui atacada por nenhum marginal ou agredida com nenhum dos objectos que tanto abomino. Chega a técnica com um copo de água com açúcar. Então querida o que se passou?!, diz-me ela. Olhe pois isso era o que eu queria saber e ninguém me explica, penso eu. É das poucas vezes que penso mais rápido que falo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá de trás põe-se a velhota a contar o que viu: Pois eu ia a entrar e vejo uma pessoa caída dentro do elevador. A porta abria e fechava e a pessoa não se mexia. Saí para a rua a gritar por socorro que lhe tinham feito mal e que eu não lhe podia valer. Veio este senhor em auxílio e eu corri a chamá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeira parte explicada. Desmaiei foi a conclusão. Mas se desmaiei foi logo assim que o elevador começou a andar porque não me lembro de nada. Só daquele solavanco característico. Mas e a pressão que eu sentia enquanto estava inconsciente? É também fácil de explicar. Quando desmaiei caí sobre a porta do elevador que ao chegar ao seu destino se abriu para o lado. O meu corpo caiu no chão ficando a cabeça na corrediça da porta. Ora como o sensor de infra-vermelhos está colocado um pouco mais acima, a porta fechava. Ou pelo menos tentava, e na tentativa lá batia na minha cabeça. Mais precisamente na minha orelha esquerda e a direita batia onde devia bater a porta. Como havia um obstáculo que impedia a porta de fechar, e que só por acaso era eu, voltava a abrir. De novo, voltava a fechar. E a abrir. E a fechar. Tantas vezes quanto as possíveis no tempo que demorou até virem em meu auxílio. Tudo explicado, uma valente dor de cabeça, e a mais profunda desilusão do meu salvador. Toca mas é de beber a água e de me por a andar porque para vergonha já basta! Doeram-me as orelhas mais de três dias. Mas ganhei uma história para contar.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/13287483-111748695100272699?l=costinhaslife.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://costinhaslife.blogspot.com/feeds/111748695100272699/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=13287483&amp;postID=111748695100272699' title='20 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/111748695100272699'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/13287483/posts/default/111748695100272699'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://costinhaslife.blogspot.com/2005/05/o-elevador.html' title='O elevador...'/><author><name>Costinhas</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10671459330600777307</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-JHQT9Pp1A9A/TW43vcWSSJI/AAAAAAAAGxw/45RdEVJAqaE/s220/IMG_4379%2B%25282%2529.jpg'/></author><thr:total>20</thr:total></entry></feed>
